sábado, 14 de dezembro de 2013

Surpreender e emocionar também é cuidar


Oi queridos, tudo bem com vocês?
Comigo tudo bem. Em casa, fazendo a listinha de compras de Natal pra ver se enfrento o inferno do shopping center hoje de tarde. Não sei o que vocês acham de fazer compras, eu acho péssimo. Aquele monte de gente se empurrando nos corredores, vendedores de saco cheio, ter que caminhar, caminhar, caminhar... mas, enfim, é necessário.
É necessário não só porque são os presentes de natal, mas porque é legal fazer compras. #prontofalei. Quer dizer, eu não gosto da andança toda, mas gosto de escolher coisas novas pra mim, coisas legais pras pessoas que eu amo. É bom presentear né?
E apesar de eu não conseguir esquecer da EM no momento das compras (afinal, depois de alguns minutos caminhando, ela se abraça em mim e vai pesando) eu consigo me desligar um pouco dela. É bom ter momentos em que a gente desliga da doença.
Eu tô lendo um livro, que ainda não decidi se tô gostando ou não, mas conta a história de uma adolescente com câncer. É um bestseller, o nome é A culpa e das estrelas. E ontem li uma frase e fiquei rindo sozinha, porque a menina diz uma frase que eu sempre uso quando não posso/não consigo fazer alguma coisa por conta da EM. Ela diz: "depois de passar o dia inteiro ocupada tendo o câncer, declinei o convite". E eu seguidamente digo pras pessoas: não posso, tô muito ocupada hoje tendo esclerose múltipla. Ou dizia, porque depois de me xingarem diversas vezes por conta disso, dizendo que eu tenho que ser forte, eu só digo pros mais íntimos, que entendem que ter ou não ter EM não é uma escolha minha.
Mas, enfim, o negócio é que a gente perde muito tempo da vida (ou ganha? sei lá...) tendo a doença. Ela nos consome muito tempo. Pensamos nela durante muito tempo. E, ao contrário do que as pessoas pensam, não é por uma escolha nossa. É porque ela tá ali. Ela dói. Ela machuca. Ela trava. Ela impossibilita.
Como eu vou me desligar da EM se ela faz minhas mãos tremerem involuntariamente do nada? Se ela me segura na cadeira sempre que eu quero levantar? Se ela me faz andar cambaleando quando eu quero ir em linha reta? Se ela trava a minha perna na hora de subir uma escada? Se ela tira toda a minha energia quando o que eu quero é fazer alguma coisa? Duvido que exista algum ser humano que seja capaz de esquecer algo que está tão tão tão presente. Não adianta negar o corpo quando ele é o nosso meio de fazer as coisas.
Mas é claro que em alguns momentos a gente consegue deixar ela guardada na gaveta. Eu identifico dois momentos em que eu "esqueço" dela: quando precisam de mim em situação de risco ou quando estou vivendo algo muito, muito feliz. As situações de risco eu prefiro não passar. Como quando a mãe desmaia e eu tenho que ir atrás de socorro. Eu até consigo fazer isso, mesmo estando em fadiga. Mas depois fico dez vezes pior.
Prefiro as situações extremamente felizes. Como quando o avião pousa em São Paulo e, mesmo eu estando morrendo de dor nas pernas e cansada, eu vou o mais rápido que posso para a sala de desembarque encontrar meu amor. Ou quando tem uma festa esperada e eu me arrumo pra ir toda trabalhada no glamour e minha mão me obedece até pra passar o delineador. Ou quando estou com amigos queridos, rindo e me divertindo e até esqueço que são 4h da manhã e que eu tava com sono, dor, etc. Ou quando eu viajo com a família ou amigos e quero ver tudo, conhecer tudo e pra isso passo muito calor (como em Olinda, subindo a ladeira) ou muito frio (como naquele barco na Dinamarca) e consigo me divertir.
E situações extremamente felizes não dependem de muuuuita coisa. São pequenos momentos, no dia a dia que fazem a gente sorrir. São as pessoas que estão conosco que nos ajudam a ter esses momentos. E às vezes, uma ideia original mas nem tão difícil de se fazer é o que nos falta. Uma surpresa! Adoro surpresas! Me emocionam, me desconcertam, me alegram demais!
E foi isso que um grupo na França fez com algumas pessoas com câncer. Vi o vídeo hoje de manhã e achei simplesmente genial.
Pra quem não entende nem francês, nem inglês, eu explico logo depois do vídeo, pra não estragar a surpresa:



O vídeo começa com uma declaração da Katy, diagnosticada com câncer há dois anos, "Sabe o que eu mais sinto falta? Ser despreocupada". E logo depois, quando aparece a imagem dela, ela diz que "saber que eu não posso ser curada é muito difícil de aceitar". Nós, com EM, sabemos bem como é isso, saber que não podemos ainda ser curados. Depois outras pessoas contam seus diagnósticos reforçando que isso não sai da sua cabeça, que  você deixa de ser despreocupado imediatamente no momento em que é diagnosticado. E aí, você pode dizer, mas Bruna, a gente se preocupa menos com coisas desimportantes da vida depois do diagnóstico. Pode até ser, mas se preocupa o tempo todo com a saúde/a doença. Se preocupa com alimentação, horário de dormir, exercícios, remédios e mais remédios, dias de consulta, horas de exames, ler notícias sobre a doença, saber mais sobre tratamentos, ler sobre outras pessoas com a doença, e por aí vai...
Como diz uma moça no vídeo, agora, depois do diagnóstico não é mais possível viver a vida da forma que se quer, despreocupadamente. Ou quem é que, tendo o diagnóstico sai de casa sem se preocupar com o remédio? Com a acessibilidade do lugar que vai? Com a distância que vai ter que andar pra saber se vai conseguir chegar? É osso!
E aí, inspirados nessas declarações a Fundação Mimi (que eu desconhecia) e a Leo Burnett (agência de publicidade que eu adoro), criaram o projeto "Se por apenas um segundo". Nele, 20 pessoas diagnosticadas com câncer foram convidadas a ir a um estúdio para uma transformação às cegas. Todos acharam que iam ganhar uma produção "normal". Mas na hora de se olhar no espelho, estavam todos escandalosamente, radicalmente, talvez até ridiculamente transformados. E as reações deles ao se olharem no espelho foram fotografadas. E as fotos viraram um livro e uma exposição. E nesses segundos, quando se olharam no espelho, quando compartilharam com os outros esse momento através das fotos, pelo menos nesses segundos eles se despreocuparam. Eles se sentiram alegres, felizes. Eles sentiram que podiam ser outros talvez. Eles se sentiram cuidados.
Eu sempre digo que cuidar de alguém com uma doença incurável não é só levar no médico, dar os remédios no horário certo e levar na fisioterapia. Isso tudo é muito importante. Mas cuidar de alguém é olhar pra essa pessoa e entender seus desejos, seus sonhos, suas vontades. É tentar arrancar um sorriso dela sempre que possível, porque o sorriso mata a desesperança nos nossos corações. É prestar atenção no que a pessoa fala para surpreendê-la depois. É estar junto. Cuidar é confortar e ajudar. E isso a gente deve fazer com todos que amamos, não só com aqueles que pensamos que estamos prestes a perder.
Não espere o romance terminar para enviar flores. Não espere o diagnóstico de algo incurável para dizer que ama e que quer estar junto. Não espere seu amigo que está sofrendo pedir, ofereça-se.
Nunca vou esquecer um ato de uma amiga minha durante uma pulsoterapia. Faz muitos anos já, eu entrei em surto quando minha irmã estava no hospital psiquiátrico e eu estava muito sozinha em casa e fazendo pulso. Eu esqueci de me cuidar. Não queria comer, nem pentear os cabelos, nem arrumar as unhas. Só tomava banho por obrigação. E numa tarde a Raquel Simor apareceu lá em casa, com um caderno da Hello Kitty, caso eu quisesse anotar alguma coisa e arrumou minhas unhas. Pintou com o esmalte vermelho que eu gosto e me convenceu que eu era linda. Nesse dia eu voltei a pentear os cabelos e a passar batom antes de ir pro hospital fazer a aplicação.
Convencer seu amigo que um pouco de vaidade faz bem também é cuidar.
Aí lembrei de um recado que eu li enquanto o Jota fazia o Tysabri na terça feira, lá na unidade de quimioterapia do Hospital São Paulo. Enquanto esperávamos, a enfermeira afixou um recado na televisão que dizia que na sexta-feira (ontem), teria uma festinha de final de ano com as mulheres que fazem quimioterapia, com distribuição de lenços e perucas. Achei tão legal aquilo. Porque a unidade de saúde percebeu que cuidar não é só aplicar o remédio, é mostrar pras suas pacientes que elas continuam sendo mulheres lindas mesmo sem seus cabelos, ou com o inchaço da medicação. Elas foram convidadas e a se despreocuparem com a doença e se preocuparem consigo próprias, para além da doença. Achei legal.
E, se você não chorou com o vídeo da transformação, prepare seu coraçãozinho, porque hoje saiu o vídeo de natal do Zaffari, com o mesmo tema: cuidado.
É simplesmente lindo e não precisa de explicação. Prestar atenção é cuidar. Ser sensível é cuidar. Compaixão é cuidado e amar verdadeiramente faz toda diferença. Acho que isso diz tudo.
Assistam, se emocionem e passem o recado adiante não só na época de natal:



Surpreenda (positivamente, é lógico) quem você ama. Afinal, quem não gosta de ver que alguém investiu tempo, energia e amor pra te ver mais feliz?
Bom final de semana!
Até mais!
Bjs


P.S.: um update nesse post, mais uma história linda e emocionante sobre cuidado e amor:
http://www.buzzfeed.com/maycie/esse-cara-viajou-o-pais-usando-um-tutu-rosa-so-par
Vale a pena ler e ver o vídeo. Lindo!

15 comentários:

  1. Que texto lindo Bruna. Emocionei...
    Bjoo

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  2. Bruna, só não assisti ao vídeo ainda porque não estou 100% ótima, emocionalmente hoje. Deixarei pra outro dia em que estiver melhor, ok?

    Também já fui às compras, mas o efeito não foi suficiente. Acho que devia ter comprado mais (háháhá...), mas o meu cartão não é "sem limites".

    Concordo que quem ama cuida e, assim como você, esqueço de meus limites e restrições físicas quando vejo minha mãe tendo crise de asma ou com dificuldade para andar por causa das varizes. E sou eu que tenho EM!!!

    Outra coisa que queria lhe dizer é que, por causa do seu post falando da reencenação de Dueto para Dois, no Rio de Janeiro, fui assistir no Teatro do Jockey, no sábado passado.

    Esperei mais de 14 anos para poder assistir a essa peça, desde quando descobri ser portadora da doença em 2000 e li sobre a existência e criação da ABEM (seus fundadores se encontraram na saída do teatro em São Paulo na década de 80.

    O texto é pesado e carregado, além de que não podemos esquecer que a medicina avançou muito de lá pra cá, mas as sensações e sentimentos não mudam! A forma de interagirmos com os que cuidam de nós (família, cônjuge, empregados e profissionais), tambpem não.

    Grande beijo!!!

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    1. É, vídeos de natal do zaffari exigem um estado emocional bom, porque sempre me desmontam...ehehhehe
      Que legal que você conseguiu ver a peça. Tenho muita vontade de ver. Se voltar em cartaz em São Paulo, talvez eu consiga.
      Obrigada por compartilhar tua impressão com a gente ;)
      Bjs

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  3. AMEI e me identifiquei muito com teu texto Bruna!
    É incrível como ,mesmo sem a mínima energia, a gente extrai da alma eu acho, uma força estranha e imensa que nos permite ajudar, socorrer ou simplesmente sorrir para quem amamos.
    E como um carinho, um cuidado, uma surpresa boa... FAZ BEM!!!
    Não costumo me preocupar com minha EM, Só me arrepia pensar em ter que usar cortisona em doses altíssimas, porque incho muito e já envelheci um monte por causa disso. Pô ninguém merece parecer mais velha do que é... kkkkkkkkk...
    O que, realmente, me preocupa é meu irmão, que tem diabete, é hipertenso e não se cuida como deveria. E minha mãe que tem idade e já não tem forças para suportar a dor de me ver em surto ou piorando da EM. Sem falar que ela tem problemas de saúde e precisa muito de mim e do meu irmão.
    Quando o problema é comigo eu sou tranquila. Não que eu esqueça da EM... ela está sempre dizendo: tô aqui tô aqui! Apenas finjo que não ouço e não dou bola pra ela... eu digo: "vai ver se eu estou na esquina". kkkkk...
    Como tu dissestes, não escolhemos ter EM, por isso não concordo quando dizem: "a vida é feita de escolhas."
    A vida é feita de escolhas sim, mas há que se ter uma boa dose de sorte também!
    Adoraria de assistir a peça. Seria bom se viesse para Porto Alegre!
    O Zaffari se supera a cada ano! Que vídeo lindo... pura sensibilidade!
    Bruninha, adorei conhecer o Jota pessoalmente! Vocês formam um casal lindo!
    Beijinhos,
    Neyra

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    1. Acho que sorrir pra quem amamos e receber esse sorriso de volta é o melhor remédio para qualquer problema nos nossos dias né.
      Bjaaum

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  4. Olá Bruna!
    Lembra, comentei aqui que tive câncer no ano passado, vendo o vídeo revivi alguns momentos difíceis, o medo, a perda do cabelo (tem que ver, virei um anjinho, meu cabelo era liso e agora tá todo crespo), mas graças a Deus já passou. Talvez um dia possamos dizer o mesmo da EM. Muito obrigada por compartilhares os vídeos, os teus pensamentos. És muito especial.
    Beijos, Beti

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    1. Tomara que possamos dizer sim. Obrigada Beti!
      Bjs

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  5. Como sempre seus textos são sinceros, lindos, emocionantes! Acho que pela primeira vez consegui entender esse sentimento que tenho dentro de mim "não viver mais despreocupada". Mas é a vida! Bola pra frente! Obrigada mais uma vez.

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    1. Obrigada Fernanda!
      Bola pra frente sempre!
      Bjs

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  6. oi Bruna,
    um amigo querido me disse que eu tenho um senso de humor meio torto e ele deve ter razão... Nunca pensei em dizer que eu não posso fazer algo porque estou ocupada tendo EM! Achei ótimo! Nos dia em que eu não aguento comigo, costumo a dizer "hoje é dia de Marilia!" (com exclamação, mesmo) E nesse dia, só aposto em sucesso garantido: leio livros ou vejo filmes que conheço e gosto, e só faço o que consigo sem esforço e que me agradam. "Dia de Marília" acaba virando dia pra cuidar de mim. Fico aqui dando voltas... mas. o que eu queria dizer mesmo é que nunca consegui apontar tão bem o que passa: a falta que faz viver despreocupada. Nem que seja por um instante. Valeu.
    beijos
    Marilia

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    1. Senso de humor meio torto é comigo mesmo...ehehehhe
      Se despreocupar por alguns instantes faz muito bem à saúde!
      Bjs

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  7. Gente, e olhem que linda essa história também:
    http://www.buzzfeed.com/maycie/esse-cara-viajou-o-pais-usando-um-tutu-rosa-so-par

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