quarta-feira, 28 de setembro de 2016

73 é pouco ou é muito?

Oi queridos, tudo bem com vocês?
Por aqui tudo ótimo! E eu ando com saudade de escrever. Simplesmente sentar e escrever. Mas a vida tá corrida e quando eu vejo, o dia acabou e eu não escrevi ainda.
Na verdade eu tenho escrito bastante. Estou trabalhando com a produção de conteúdo da AME (muito amor pela AME desde sempre), e às vezes, as palavras que viriam para cá, vão lá pro site da AME (quem ainda não acompanha, nunca é tarde pra começar).
Aí você pode perguntar: mas Bruna, sobre o que você tem vontade de escrever, afinal?
Ah, sobre tudo! ehehhehe. Mas devo confessar que a EM que me importa agora não é a minha, mas a do Jota. A que me toca diariamente e modifica a minha vida não é a minha EM, mas a dele. E eu penso em escrever como me sinto em relação a isso.
Mas também quero escrever sobre a gravidez. Sobre a espera do Francisco. Sobre o quanto isso está nos mudando completamente. O quanto eu estou diferente, interna e externamente. Definitivamente não sou mais a mesma de antes do Francisco. É super clichê, mas, devo dizer que: só sabe quem passa.
Atualmente vivo aqueles dias em que não vejo a hora de pegar meus filhos nos braços, amassar, afofar e morder até cansar (ou seja, nunca!). Mas ao mesmo tempo, acho que não vai dar tempo de fazer tudo que penso que tem que fazer antes dele chegar.
E quando eu digo coisas a fazer antes dele chegar, não é coisas pra ele não. Ele já tem lugar pra dormir, banheirinha, fraldinhas lindas, roupas mais fofas ainda, slings (obrigada tia Tuka) uma família que o ama muito e a julgar pelo tanto que eu cresço diariamente, vai ter comida de sobra. Não sei como acontece com as outras grávidas,  mas eu, que tenho algumas manias de ter tudo meio adiantado, organizado etc., acabo achando que não vai dar tempo, que vou ficar devendo alguma coisa pra alguém. E, no meio de tudo isso, vejo que, às vezes, eu fico devendo pra mim mesma. Me devo algumas horas de sono. Me devo horinhas passando a mão no barrigão e cantando pro Francisco. Me devo sair pra me entupir de sorvete quando dá desejo.
Aí eu olho na tela do celular, e no aplicativo que uso pra saber quantas semanas eu tô (o mesmo que diz que meu bebê tá do comprimento de um salsão) e ele diz: FALTAM 73 DIAS. E ao mesmo tempo que fico feliz e ansiosa, bate a sensação de "não vai dar tempo".
Ainda bem que tenho o Jota e minha mãe pra me chamarem de besta o tempo todo e me acalmarem dizendo que vai dar sim.
Fora isso, eu estou muito bem. Mas muito bem mesmo. Surpreendentemente bem e cheia e energia.
Mas se eu deixar alguém na mão no meio do caminho, me desculpem, é pela melhor, mais linda e fofa causa do mundo: a chegada de mais amor em nossas vidas, nosso pequeno Francisco.
Quero escrever mais, e me desculpem os que não gostam de bebês, porque esse será um assunto recorrente por aqui. Mas hoje era só isso mesmo. Uma pequena atualização com ares de desabafo.
Até mais!
Bjs

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

A palavra do dia é: CA-PA-CI-TIS-MO

Oi gentes, tudo bem com vocês?
Por aqui tudo ótimo. Nenhuma roupa mais me serve (falarei disso no vídeo de amanhã), mas estamos contentes e contando os dias para a chegada do Francisco.
Até ontem também estava contando os dias para o início das Paralímpiadas aqui no Brasil. Como eu tinha contado aqui pra vocês, eu tinha me inscrito pra ser voluntária nesses jogos. Parei de fazer os treinamentos online quando descobri que estava grávida, fiz as contas e vi que não poderia mais viajar de avião na época dos jogos.
Enfim, estou acompanhando pela TV, naquele um mísero canal que a SporTV tá passando ou no Canal Brasil, que passa só algumas coisas e acompanhando via twitter e facebook o desempenho dos nossos atletas.
Ontem tivemos uma belíssima cerimônia de abertura. Belíssima e emocionante. Não sei se porque eu gosto tanto dos jogos paralímpicos, mas me emocionei demais desde a hora que o despertador do Sir Philip Craven tocou em ritmo de bossa nova. Mas, apesar de belíssima, pra quem viu na TV era excludente: não teve audiodescrição, nem legendas nem janela de libras. Mas pra que tu queria tudo isso Bruna? Porque meus amigos cegos e com baixa visão mereciam saber o que estava acontecendo através da audiodescrição das imagens, porque meus amigos surdos não usuários de Libras queriam saber o que estava sendo narrado e meus amigos surdos usuários de Libras também.
Fiquei com um olho na tv e outro nas redes sociais, lendo o povo reclamar que não tava passando em tv aberta. Belíssimo exemplo de exclusão desses canais que adoram falar de inclusão e colocar pessoas com deficiência como "exemplos de superação" na tela, dramatizando suas vidas para emocionar e fazer as pessoas que se acham muito normais darem "valor a suas vidas" (olha eu aqui revirando ozóio pra isso tudo), não passar a abertura de um dos maiores eventos esportivos que esse país já sediou, com certeza o que teremos maior número de medalhas.
Aí hoje de manhã tava lá na Namariabraga eles falando de uma abertura que ninguém viu, porque a Globo achou melhor passar suas novelinhas e um jogo de futebol podre.
Bom, mas eu fiquei vendo no SporTV. E confesso que dava pulos a cada comentário capacitista e, desculpa aí gente, muito burro dos comentaristas. Só essa transmissão já dava uma tese de doutorado. Eu ouvi "presos a sua cadeira de rodas", eu ouvi "exemplos de superação", eu ouvi "superhumanos", eu ouvi "imperfeitos buscando a perfeição", eu ouvi "que sofrem de"... e a coisa só piorava.
Aí nas redes sociais um bando de ovelinhas reproduzindo esses comentários... tava de doer o coraçãozinho. E eu do sofá de casa: imperfeito? Imperfeito teu c*! Presos? Como assim presos? A cadeira é liberdade, é autonomia minha gente! Sofrem de? Quem sofre aqui sou eu tendo que ouvir isso tudo...
Minha vó tava na sala... e cada delegação de atletas que entrava ela soltava um tadinho pra algum deles... não me guentei e disse que ela seria expulsa da sala no próximo tadinho.
E quando a esplendorosa Marcia Malsar caiu? Aaaaah... choveu de gente comentando que ela precisava de um acompanhante ou que ela não devia fazer aquilo. Sério?
Bom, acabou a cerimônia com um misto de emoção, felicidade e de "temos muito trabalho pela frente".
Acho que os profissionais de mídia (e todo ser humano na verdade), deveriam ler o manual Mídia e Deficiência antes de abrir a boca pra falar publicamente sobre deficiência. (Tá disponível aqui, leiam!). E acho que todo mundo devia se informar mais sobre o assunto. Porque ontem vi muita gente dizendo: mas Bruna, as pessoas não sabem disso tudo, dessa história do movimento da pessoa com deficiência. Não sabem porque não querem! A informação tá aí disponível e acessível para todos! Acho muito engraçado que durante quatro anos ninguém se interesse por saber nada sobre deficiência, aí chega no dia da abertura dos Jogos Paralímpicos e reclamam porque a cerimônia tinha muitas referências que só quem tem ou estuda o movimento sabe. Não sabe porque não quis saber, não quis aprender, não quis ler, não quis conversar com ninguém... Há quem diga que é por falta de tempo... cansei de ouvir professores de escolas dizendo que não entendem de inclusão porque não tem tempo. E eu sempre lembro do mantra que minha mãe me ensinou: tempo é questão de preferência minha filha!
Acho que o capacitismo precisa acabar. Ontem!
Mas o que é CAPACITISMO Bruna?
Bem, vamos lá, que ninguém nasce sabendo: capacitismo é a discriminação direcionada às pessoas com algum tipo de deficiência em virtude de sua condição. Chamar de coitadinho, achar que ali não é seu lugar, achar que toda pessoa com deficiência tem que ter um "responsável" por ela, achar que toda pessoa com deficiência sofre, que a falta de uma função é imperfeição, tudo isso é sim discriminar. Ah, e parem de falar pessoas especiais, pessoas com necessidades especiais, portadores de... especiais todos somos pra alguém e portador é quem pode deixar de portar... ninguém diz que porta olhos azuis né? Digam o nome certo, percam o medo da palavra deficiência. É: pessoa com deficiência. Não se preocupem, deficiência não é o contrário de eficiência. O contrário de eficiência é ineficiência. Deficiência é sinônimo de perda de alguma função apenas. Então, a pessoa é, primeiro uma pessoa que tem uma deficiência. Se ela vai ser especial pra você ou não é outro assunto.
Ah, e essa coisa de exemplo de superação é um saco. Só serve para quem não tem alguma deficiência se sentir melhor (ou pior) com a vida que tem. Essa coisa de: apesar da deficiência ele foi lá e venceu; isso também é capacitismo, porque você está vendo a deficiência e não as capacidades da pessoa.
Ontem, naquelas delegações todas que entraram, eu não vi exemplos de superação de vida, eu vi muitos atletas de ponta que estão lá, buscando medalhas e vitórias nos seus esportes.
É mais difícil porque tem uma deficiência? Sem dúvida é, porque o mundo não é pensado para que a pessoa com deficiência tenha autonomia. Porque as pessoas ainda acham que quem tem uma deficiência devia mais era ficar em casa, pra não incomodar. Porque acham que, gente como eu, que fica exigindo acessibilidade em todos os lugares é chata.
Sou chata mesmo. E se reclamar, vou ser mais chata ainda. Porque eu quero ter o direito de conviver com todas as pessoas que eu gosto, tenham elas ou não uma deficiência. Eu quero pode convidar um amigo cadeirante, cego, surdo, tetra, para, hemiplégico pra sair sem me preocupar com a forma como vamos sair, passear e curtir a vida. Eu quero que meu marido possa levar nosso filho passear sem ninguém falar "olha que bonitinho", como se os dois fossem crianças, nem que achem que nossa vida é uma vida de sofrimento.
Eu quero mesmo é ver os jogos paralímpicos serem disputados junto com os olímpicos. As pessoas dão a desculpa da logística, porque tem que adaptar os lugares pra pessoa com deficiência. Oi? Sério isso? Sejamos honestos, um lugar 100% acessível é adequado para pessoas com e sem deficiência. O que falta é vontade mesmo.
Mas, como eu disse, temos muito trabalho pela frente.
E bóra torcer pelos atletas brasileiros!
Bjs

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Moda? Inclusiva?


Oi gentes, tudo bem com vocês?
Por aqui tudo ótimo! Francisco crescendo saudável e bem agitadinho dentro da barriga.
Hoje quero comentar um evento que participei ontem, à convite do Diversidade na Rua - Mercur na Univates (Unidade Integrada do Vale do Taquari de Ensino Superior - Lajeado), o Desfile de Moda Inclusiva.
Coloquei convite na fanpage do blog no face, e ontem também coloquei o link pra todos poderem acompanhar ao vivo. Já recebi retorno de algumas pessoas que conseguiram ver online e elogiaram a nossa roda de conversa sobre moda e inclusão. Também quero fazer um agradecimento especialíssimo a minha amiga Glaci, que foi de Teutônia à Lajeado ver a gente e ainda trouxe um monte de frutas gostosas pra satisfazer os desejos de Francisco (laranja e bergamota da Glaci tem outro sabor!).
Reencontrar a Carlena, conhecer pessoalmente a estilista e linda Vitória Cuervo, que eu conhecia apenas o trabalho, conhecer a Cris, que trabalha com a Carlena, é uma queridona e nos deu uma força também foi um imenso prazer. Ah, e temos que agradecer também ao Jessé, que dirigiu aguentando nossa tagarelice na ida e na volta...hehehehe.
Mas vamos ao evento, certo?
A proposta era ser um desfile de moda inclusiva. Ou seja, utilizar a moda como forma de inclusão, no caso, de pessoas com deficiência. A ideia surgiu um pouco naquele encontro que tivemos no ano passado sobre deficiência e beleza (não viu? Veja aqui) e falávamos sobre o quanto o mundo da moda e da beleza não é pensado para o singular, o diferente, seja essa diferença uma deficiência, uns quilos a mais, um corpo diferente do magro, esbelto e "perfeito" (se é que isso existe).
Essa proposta foi apresentada ao curso de moda da Univates, que deveria desenvolver com suas alunas (futuras) estilistas um desfile de moda inclusiva.
O evento consistia em três momentos: uma roda de conversa sobre moda e inclusão, comigo, a Carlena, a Vitória, a Susana (uma das modelos do desfile) e uma das estilistas, com uma mediadora. Depois teríamos a apresentações de dança e um desfile de moda inclusiva.
Mas, infelizmente, não foi exatamente isso que vimos.
Mas por que Bruna?
Bem, vamos por partes...
Acho que na roda de conversa conseguimos dar uma noção muito geral sobre inclusão das pessoas com deficiência na nossa sociedade. Destacamos o quanto não queremos ser exemplo de vida muito menos de superação pra ninguém, falamos que a moda não é pensada para quem tem dificuldades em abotoar uma camisa, andar sem salto alto e o quanto não devemos comparar nem pessoas nem deficiências. Apesar da falta de preparo da mediadora, conseguimos dar nosso recado sobre viver com uma deficiência: não é fácil, mas também não é impossível. Não somos melhores que ninguém, nem mais iluminados, nem mais importantes, nem mais sofredores, nem mais coitadinhos por causa disso. A Vitória, que já trabalha com moda inclusiva há muitos anos explicou, rapidamente, que a moda inclusiva não é a roupa adaptada individualmente, mas a moda pensada para todos e todas. Aquele velho conceito de acessibilidade que diz que acessível e inclusivo é aquilo que possibilita o máximo de autonomia à todas as pessoas, independente de suas limitações funcionais.
Eu fiz questão de reforçar que inclusão não é algo para as pessoas com deficiência, mas é algo para todas as pessoas, uma vez que possibilita que todos convivam com as diferenças. Lembrei disso ao ouvir a menina do curso de moda falar que para a maioria delas foi o primeiro contato que tiveram com pessoas com deficiência. Quem perde com essa falta de contato com as deficiências desde a infância é toda a nossa sociedade, que não sabe o que fazer quando se depara com uma pessoa com deficiência à sua frente, que fica com medo de conversar com um cego, que dá esmola pra qualquer pessoa que esteja numa cadeira de rodas, que foge sem tentar conversar com alguém surdo, que prefere ignorar a presença de pessoas com deficiência intelectual, que acha fofinho alguém com síndrome de down e faz graça de anão. Quem perde com a falta de inclusão é toda a nossa sociedade, que fica achando que toda pessoa com deficiência é exemplo de superação só porque vai até a padaria da esquina comprar um pão. Quem perde é quem continua dividindo as pessoas entre normais e deficientes.
Bem, essa foi a nossa roda de conversa.
Depois tivemos apresentações de dança com grupos de dança de algumas APAE's (desculpa gente, não lembro de quais cidades eram). Parabéns aos bailarinos!
E aí começou o desfile, que acompanhei das coxias do teatro. Confesso que quando eu ouvi a palavra portadores de deficiência no microfone, me doeu mais até do que a palavra normal proferida durante a conversa. Confesso também que escrever esse post pra mim é um pouco triste. Passei o dia de hoje inteirinho pensando sobre isso. Me sinto um pouco aquele lado do casal que diz: precisamos conversar!
O que eu vi não foi um desfile de moda. Não teve uma coleção de moda coerente. Não teve moda inclusiva. Não teve inclusão.
Novamente, vamos por partes.
Não teve uma coleção de moda, porque não foi uma coleção pensada para ser um desfile de moda. Amiga Vitória, que é estilista, se eu tiver errada me corrige, mas no pouco que eu entendo de moda, um desfile de uma coleção tem que ter uma coerência entre as peças, um tema pelo menos que perpasse as peças utilizadas pelos modelos. O tema podia até ser os sonhos dos modelos, como foi tão reiterado (já comento isso) na fala da apresentadora.
Não teve moda inclusiva, porque as roupas não tinham absolutamente nada que fosse pensado para a especificidade de cada uma das deficiências. As especificidades de ter uma deficiência motora, visual, auditiva etc., não foi problematizada no vestuário.
Não teve inclusão porque o que teve foi integração. E aqui eu desenho pra vocês a diferença entre inclusão e integração:

Inclusão é quando pessoas com e sem deficiência participam, igualitariamente e com equidade das atividades. Integracionismo é quando pessoas sem deficiência criam um evento do qual pessoas com deficiência possam participar, mas de forma diferenciada e separada das pessoas sem deficiência. Esse desenho fica fácil de explicar se pegarmos a escola como exemplo. Na lógica da exclusão, pessoas com deficiência não tinham direito nem lugar para estudar. Elas eram excluídas do processo educativo. Na lógica da segregação as pessoas com deficiência "ganharam" espaços para estudar, mas longe dos ambientes educativos considerados regulares. Na lógica da integração, classes especiais eram criadas dentro de escolas regulares, ou seja, pessoas com deficiência ganham um espaço perto, mas não a interação, o junto. Na lógica da inclusão, pessoas com e sem deficiência estudam na mesma sala de aula de forma igualitária, com os mesmos direitos e equitativa, ou seja, as especificidades da pessoa enquanto aluno deve ser atendida para que ela consiga permanecer no ambiente educacional.
Pensando assim, para ser um desfile de moda inclusiva, deveria contemplar a moda, com peças de roupas usáveis, que atendessem as especificidades dos usuários e tinha que ter essa mistura, de pessoas com e sem deficiência.
O que aconteceu foi que cada modelo (crianças e adultos) entrava, era apresentado a partir de sua deficiência como principal formador identitário, antes da pessoa, a deficiência, junto com sua "madrinha" (que era a estilista do figurino) reforçando a ideia de que a pessoa com deficiência precisa de alguém que o leve pela mão, e o texto lido pela apresentadora falava de sonhos, superação e amor, nada de modelagem, cortes e tecidos. Não se soube sobre o trabalho de produção das peças, só de aspectos subjetivos e clichês de esperança e superação. Aliás, algumas das peças se mostravam totalmente inadequadas, pelo simples fato de não dar autonomia e conforto a quem a vestia.
O que eu vi lá é o que a nossa sociedade está acostumada a ver desde o século XIX e que até o início do século XX era conhecido como freak show (quem nunca ouviu falar, pode dar uma olhadinha nesse filme, que retrata bem esses circos humanos: Freaks): exposição de pessoas com diferenças significativas para o espetáculo, para que as pessoas ditas normais olhassem, admirassem e pudessem voltar pra suas casas sentindo-se melhores por terem "proporcionado" esse "momento único" na vida dessas "vítimas do destino" e pensarem que seus problemas nem são tão grandes assim diante desses "exemplos de superação".
Quem foi, gostou, achou lindo e se emocionou, não se preocupem, isso está tão naturalizado na nossa sociedade que ninguém se questiona sobre o quanto isso vai contra todo o movimento de inclusão e de toda uma luta por direitos.
Não culpo os modelos e as famílias também, que provavelmente veem esse como um único momento em que seus filhos e filhas ganham destaque no centro de um palco. Mas o que eu digo, por experiência própria, é que um mundo inclusivo é muito mais que isso. Porque num mundo inclusivo a deficiência é apenas mais um aspecto identitário e não o principal. E a gente vai pro centro do palco pelas nossas qualidades, trabalhos, experiências e não pelo simples fato de ser considerado diferente e "anormal", como algo exótico a ser mostrado.
Mas fico me perguntando porque a Univates e o pessoal do Diversidade não pensaram em dar aulas sobre deficiência, inclusão, sobre o movimento das pessoas com deficiência até mesmo para elas escolherem as palavras corretas a serem utilizadas. Porque não chamaram uma estilista, como a Vitória Cuervo, que trabalha com moda inclusiva para ensinar o que é moda inclusiva, o que é um desfile de moda inclusiva. Porque não assistiram a desfiles de moda inclusiva mundo afora. Eles estão disponíveis no youtube. Aposto que, em um workshop de um dia, em dois turnos, a concepção de moda e inclusão delas seria outro. O vocabulário seria outro.
Eu sei que eventos integracionistas continuarão acontecendo. E eu vou continuar lamentando isso. Mas para chamar um evento de inclusivo é necessário estudar um pouco mais sobre o conceito de inclusão. É necessário estar mais perto de quem vive, trabalha, estuda, sente na pele a luta pela inclusão. Porque, vou contar um negócio pra vocês, ter uma deficiência não é necessariamente ter consciência de um posicionamento inclusivo, da mesma forma que ser mulher não te dá automaticamente consciência de gênero.
Eu não sei que problema de comunicação houve aí no meio do caminho, porque eu vejo essa luta pela inclusão e acessibilidade no Diversidade na Rua desde que conheci a equipe. E por isso que o choque foi grande.
Espero que, havendo uma segunda edição, realmente possamos dizer que essas duas coisas estão presentes: moda e inclusão.
O que eu vi foi uma mistura de desfile de miss (daqueles que falam sobre a vida da criatura que tá desfilando... aliás, só a análise dos textos de apresentação já mereciam, no mínimo, uma dissertação  dentro do âmbito dos estudos sobre deficiência), desfile de fantasia de carnaval (porque cada uma tinha um tema diferente e muitas eram fantasias mesmo), assistencialismo (madrinha? sério?) e apresentação de final de ano da escolinha.
Amigos e amigas, se quiserem continuar fazendo o evento nesse formato, mudem o nome, porque enquanto se chamar desfile de moda inclusiva, eu vou ir esperando ver um desfile de moda inclusiva.
Sabe, eu sofri pra escrever isso tudo. Sofri pelo que vi e passei o dia todo sofrendo pensando numa forma delicada de dizer isso tudo. A verdade é que é difícil. Ser o lado que faz a crítica é sofrido. Principalmente a partir da expectativa que eu tinha sobre o evento.
Eu poderia não ter dito nada, é verdade. Mas eu assumi um compromisso com o movimento das pessoas com deficiência muito antes de eu ter uma deficiência. E faz parte desse compromisso dizer pras pessoas quando algo incomoda quem está na luta há tanto tempo. Porque não é por maldade que as pessoas fazem isso, é por uma falta de reflexão ou de conhecimento ou das duas coisas juntas mesmo. As vezes as pessoas tem uma ótima intenção, mas a execução acaba não sendo algo que desconstrói o preconceito, apenas o reforça com uma maquiagem.
Estar no lugar de quem quer mudar e desconstruir é difícil. E às vezes é solitário também. Mas, pensando muito, o dia inteiro sobre isso, pensei que se eu não falasse nada, eu estaria me traindo.
Espero que consigam entender.
Até mais!
Bjs

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Mais vídeos...

Gente, vocês já viram os vídeos das últimas semanas?
Não tenho escrito muito, mas editar os vídeos toma um tempão...
Espero que curtam!









Até mais!
Bjs

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

É hora de agirmos!

Oi gentes, tudo bem com vocês?
Como a maioria já sabe, a Conitec optou, no mês passado, pela exclusão do Avonex do SUS para novos pacientes. Agora, apenas as pessoas que já faziam uso do Avonex vão continuar a receber a medicação.
Eu, você e a AME não concordamos com isso. Acreditamos que os pacientes precisam de mais opções de tratamento, e não menos. Estão nos tirando direitos adquiridos. E nós não vamos nos calar.
Então, se você concorda com a gente, entenda a questão e aja junto com a gente!
Acesse nossa enquete e participe:
https://apps.facebook.com/minhas-enquetes/form/recursoame
Até mais!
Bjs

terça-feira, 26 de julho de 2016

Nossos amigos, não mais, secretos

Oi gentes, tudo bem com vocês?
Por aqui tudo ótimo. Devo muitas novidades... e hoje começo contando sobre a participação aqui de casa (eu e o Jota) no amigo secreto virtual promovido pelo Diversidade na Rua, da Mercur.
Bom, ainda em maio o pessoal da Mercur entrou em contato com a gente pra saber se toparíamos participar de um amigo secreto diferente. Um amigo secreto entre os amigos que colaboram com o Diversidade na Rua. Um amigo secreto mesmo, afinal, a maioria de nós não se conhece pessoalmente (por enquanto, eu só conheço o Jota...hehehe).
Não pensamos duas vezes: topamos!
Primeiro conhecemos todos os participantes no site do evento. Li o perfil de cada um deles e abri os sites e blogs de todos pra conhecer um pouquinho melhor. Ainda sem saber quem seria minha pessoa secreta, cheguei a conclusão de que poderia ser amiga de qualquer um dos participantes. Lendo sobre suas vidas e fuçando seus facebooks, vi que adoraria sentar num boteco e passar meu tempo jogando conversa fora com o povo todo.
Todos os convidados tinham uma coisa em comum: defendem a diversidade, lutam por acessibilidade e inclusão. Ou seja, todos eram um pouco de mim também. Alguns de nós, participantes, temos alguma deficiência física ou sensorial, outros tem pessoas com deficiência em suas famílias ou círculo íntimo de amizade, outros escolheram trabalhar com isso porque simplesmente acham que é o certo. No fim das contas, estamos todos no mesmo barco, lutando pelas mesmas coisas, cada um em um canto desse país.
Justamente por morarmos longe uns dos outros, não foi possível ter uma revelação de amigo secreto presencial, onde pudéssemos descobrir o tamanho do abraço de cada um. Mas nos envolvemos com nossas vidas e histórias de tal forma que, na hora da revelação, me senti na mesma sala que todos, tomando um café e vendo os lindos presentes escolhidos de forma tão especial para cada um.
No dia da revelação eu e o Jota estávamos num congresso acadêmico e eu fugi da palestra pra descobrir quem tinha me pegado. Bobinha eu, achando que ia voltar rapidinho... demorei uma meia hora pra recompor de tanta emoção (veja aqui o vídeo).
Eu peguei a Carmem Toledo, uma filósofa, escritora, artista talentosíssima, que mantém, junto com seus amigos e parceiros, o projeto Super Specialis, voltado, principalmente as questões de inclusão de pessoas com deficiências cognitivas como deficiência intelectual, altas habilidades e transtornos de desenvolvimento. Super me identifiquei com o Super Specialis não só porque o projeto é lindo, mas porque a vivência com a deficiência cognitiva e com a doença mental é algo que faz parte da minha formação como pessoa, afinal, minha irmã mais velha tem deficiência intelectual e esquizofrenia. E é tão difícil encontrar pessoas que se preocupem com essas deficiências que eu fiquei muito feliz em conhecer mais um grupo de amigos que se preocupam com quem vive isso diariamente, como a gente.
Pra escolher meu presente, fui atrás do perfil da Carmem e descobri que ele é fã de Tintin. Como eu não sou muito boa com trabalhos manuais, o meu presente foi feito por um pessoal da Redenção que trabalha com papel maché (conheça aqui o trabalho deles). Encomendei, especialmente pra Carmem, um quadrinho com uma releitura do Tintin pra ela enfeitar seu quarto, escritório, onde quiser. Mas aí, lendo mais sobre ela, descobri dois artigos que ela escreveu sobre a amizade em Tintin, e entendi que a amizade é uma valor muito importante pra ela. Tanto quanto é pra mim. Aí, resolvi apresentar pra ela meus personagens preferidos (e seus amigos) em alguns porta copos no mesmo material do quadrinho. Assim, envio pra Carmem meus amigos Mafalda, Calvin e Haroldo, Garfield e Odie, Snoopy e Woodstock e também uma Frida com ela mesma, afinal, devemos nos amar e sermos amigos de nós mesmos para poder oferecer algo de bom aos outros. Espero que a Carmem goste do meu presente!
Quem me pegou foi a linda da Carol Constantino, do Cantinho dos Cadeirantes. Ela me emocionou demais com as palavras e os presentes (eu já recebi). Uma linda echarpe laranja, igual a da logo aqui do blog (eu não tinha ainda, acredita?), um sapatinho vermelho pro Francisco (pra quem não sabe, tem uma simpatia de que o bebê tem que sair de sapatinho vermelho da maternidade, pra dar sorte e saúde) e uma camiseta com a logo aqui do blog, que eu também não tinha e vou amar exibir por aí...
Carol, muito obrigada! Como moramos perto, ainda precisamos marcar um encontro!!!!
Bom, agora passo a palavra ao Jota, que também quer falar sobre o presente que ele escolheu pra seu amigo secreto, o Adelino Ozores do Sobre Rodas e Batom:


Olá Adelino! Tudo bem?

Feliz em te conhecer! Foi um prazer “fuçar” no teu Face e no site do Entre Rodas & Batom e conhecer um pouco do trabalho maravilhoso que realizam, como disse no vídeo, com essas duas figuras frágeis e gigantes: a mulher e a pessoa com deficiência. Digo conhecer porque às vezes ficamos tão limitados em nosso caso (no meu, no caso de minha esposa e da Associação que trabalhamos) que acabamos não conhecendo tanto o trabalho de outros que enfrentam as mesmas condições e lutam as mesmas batalhas.
A fragilidade e gigantismo de que falo não é uma “qualidade natural” desses personagens, mas uma “natureza construída”. Uma segunda pele em resposta dos preconceitos, discursos e atitudes de uma sociedade que se aproveita das limitações do corpo com uma deficiência física. E, por isso, nos exige uma postura cotidiana de enfrentamento, de gigantismo. O que é visto pelos outros como “superação” é só a vida e as dificuldades que a pessoa com deficiência enfrenta diariamente.
Lógico, isso não dava para explicar em um vídeo de 1 minuto (ainda bem). Nem dava para explicar o meu presente. O motivo para eu ter escolhido o que escolhi. Como verá, mandei para você uma arte feita em arame. É um trabalho de um artesão aqui de um parque próximo de casa, a Redenção (se um dia quiserem vir nos visitar em Porto Alegre e também conhecer a Mercur levamos você e a Eliane lá). Brinco com a Bruna que decidi isso porque minha motricidade fina não está muito boa atualmente, hehe. Mas a verdade é que, mesmo que minhas mãos funcionassem normalmente, não conseguiria fazer algo do tipo. Nunca fui bom com trabalhos manuais e por isso preferi comprar algo.
O que lhe envio é um objeto que estava em exposição. Inicialmente, conversei com o artesão sobre a possibilidade de encomendar algo e voltei para casa sem nada. No entanto, me lembrei de uma coisa que li uma vez em um livro sobre a Cultura do Barroco e que parecia se encaixar perfeitamente naquele artesanato e para a nossa sociedade do século XXI. Lá dizia algo que o indivíduo barroco tinha que, ao mesmo tempo, lidar com as forças do mundo medieval, que pretendiam lhe estruturar e enquadrar, e construir uma subjetividade de enfretamento às determinações sociais na nova liberdade que se abria. Nessa estrutura, o sujeito estava liberto das formas fixas da ordem medieval, mas em uma sociedade que reforçava os mecanismos de repressão daquele mundo.
A época é outra, mas acredito ser aplicável à nossa sociedade e ao móbile. Provavelmente, o artesão não tenha pensado em nada disso e tal coisa seja uma viagem só minha. Mas vejo um indivíduo (mulher), que se utiliza de uma moldura (uma força que em uma arte em 2D a enquadraria em um espaço limitado) para se apoiar e romper essa estrutura dançando. Uma atitude que talvez, deva ser a nossa. Um indivíduo que sabe da moldura (todos os discursos, instituições, comportamentos etc.), mas a utiliza como apoio para dança.
Abraço e espero que goste.
Jota

22/07/2016

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Mais vídeos (e férias)

Temos mais três vídeos novinhos na canal!
Juro que semana que vem volto das minhas "férias" de posts e conto tudo sobre a defesa da tese, o curso que fiz com as Inclusivass e como estou me sentindo ultimamente com tantas mudanças. Mas, como são muitas mudanças, precisei de um descansinho.
Não viu ainda os vídeos?
Confere aí:









Bjs

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Amigo secreto...



Oi queridos, tudo bem com vocês?
Por aqui tudo bem!
Bom, como já comentei por aqui, estou participando de um amigo secreto virtual muito bacana, criado pelo Diversidade na Rua para comemorar o Dia do amigo, que é em julho.
Essa semana fui pesquisar todos os participantes e, claro, dar uma fuçada mais aprofundada no perfil da(o) minha/meu amiga(o) secreta(o)...
O que posso dizer é que, lendo seus perfis, vendo seus vídeos e fuçando as redes sociais, vi que adoraria conhecer e conviver pessoalmente com todas essas pessoas. São todas pessoas com os mesmos ideais que eu, que lutam pelas mesmas causas e que, mesmo quebrando a cara de vez em quando, não desistem. Pessoas que acreditam na inclusão, na diversidade como valor e que acreditam nas pessoas e num mundo melhor.
Alguns eu já conhecia o trabalho pela internet. Outros eu tive a felicidade de conhecer agora. Já sou fã e admiradora de todos.
Mas, dos 13 participantes, eu tirei apenas uma dessas pessoas... quem será hein?
Será que foi o Cleo, a Débora, a Rita, a Carol, o Adelino, a Eliane, a Nathalia, a Regina, o Jota, a Claudinha, o Hamilton ou a Carmem?
Conheça todos eles aqui no site do Diversidade e se apaixone por essas pessoas também!
Vou dar algumas dicas que eu pude achar sobre minha amizade secreta:
É uma pessoa linda (em todos os sentidos), persistente, batalhadora e criativa! Acho que não dei dica nenhuma... porque todos são assim... enfim... morram de curiosidade até o dia 20 de julho!
Até mais!
Bjs

terça-feira, 28 de junho de 2016

EM e o Bebê no jornal

Vídeo da semana passsada, do nosso casamento, da matéria do jornal!