quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Miopia e interferon

Oi pessoal, tudo bem com vocês?
Por aqui tudo bem. Continuo vivendo essa louca gincana que é maternar, trabalhar etc.
Bem, e nessa doidera toda, minhas consultas médicas estão todas atrasadas. Uma que estava atrasada e eu fiz essa semana foi a ida à oftalmologista.
Como já contei por aqui em alguns outros momentos, eu tive problemas de visão por conta da EM e, durante muito tempo convivi com uma perda de visão periférica que foi melhorando ao longo dos anos e, principalmente, com o uso do Avonex. Usar o avonex me ajudou a deixar a bengala de lado e também a enxergar melhor.
Quer dizer... em partes...
Há uns 6 anos eu desenvolvi uma miopia. Bem leve (menos de um grau em cada olho), é verdade, mas precisava de óculos para não sentir tanta dor de cabeça. Como sempre fui uma adoradora de óculos, nunca me importei em ter que usar óculos. Tenho uma coleção deles. Sempre achei lindo usar óculos. Minha irmã (que hoje tem 16 graus de miopia, mas que já tinha 3 graus com 3 anos de idade) sempre usou óculos e eu sonhava em ter um. E tinha que ser quadrado e azul. Realizei esse sonho depois dos 20 anos, com a minha leve miopia.
Pois bem, pouco antes do Francisco nascer eu não estava mais usando meus óculos. Não sei, parecia que incomodava. Eu achava que era o inchaço da cara...hehehehe. Depois que ele nasceu, usei menos ainda, porque ele adora tirar óculos (e correntes, e brincos e qualquer adereço que esteja no rosto das pessoas), brincar e quebrar. O da minha mãe já está completamente torto.
Há alguns dias saí sem ele e coloquei o óculos. Mas logo tirei, porque estava nitidamente me atrapalhando. Aí resolvi marcar a oftalmo, que já devia ter ido há uns 4 meses, pelo menos.
Na consulta descobri que o olho que tinha um grau está sem nada e o outro, que tinha 0,75, está com 0,50. Ou seja, os óculos só podiam me incomodar mesmo. E agora não preciso mais de óculos!
Isso quer dizer que a gravidez curou minha miopia?
Bem que poderia ser. Mas, na verdade, não usar o interferon fez com que minha visão voltasse ao normal dela. Eu e minha oftalmo já desconfiávamos que minha miopia era causada pelo uso do interferon. Ela me disse que praticamente todos os pacientes dela que usam interferon acabam desenvolvendo algum grau de miopia, que regride quando param a medicação. Pois bem, eu fiquei um bom tempo sem o interferon e agora fazem só 7 meses que estou usando. Isso quer dizer que poderei ficar um tempo sem óculos ainda. Talvez o uso contínuo acabe fazendo a miopia voltar (assim como fez aparecer um ano depois de eu iniciar o uso do avonex). Aí eu tiro minha coleção de óculos da gaveta.
Achei interessante isso, porque nunca tinha lido em lugar nenhum sobre esse tipo de reação da medicação. E com vocês, já aconteceu algo do tipo?
Até mais
Bjs

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Curtindo um dia sem EM

Oi pessoal, tudo bem com vocês?
Bem, por aqui tudo bem. Depois do nascimento do Francisco e com o Jota tendo que fazer a tese dele, tem dias que só paramos pra conversar na hora de deitar, depois que coloco o Chico no berço. Há alguns dias, numa dessas conversas, falávamos do super clássico Curtindo a vida adoidado quando o Jota me perguntou: e se a gente tivesse um dia pra curtir a vida adoidado, sem a EM?
E se?...
Bem, aí começamos a contar como seria esse dia e eu queria compartilhar aqui com vocês.
Quando o Francisco acordasse pedindo o mamá da manhã (lá pelas 7h), o Jota ia se levantar sozinho, esquentar a mamadeira e me trazer na cama. Enquanto o Chico mamava, ele voltaria pra cozinha pra preparar nosso café da manhã. Com direito a ovos mexidos, café passadinho na hora e uma fruta descascada (não vale ser banana). Ele iria no banheiro sozinho e faria xixi de pé. Lavaria o rosto, escovaria os dentes e voltaria para o quarto com a bandeja de café da manhã.
Para eu tomar meu café, ele ficaria com o Chico no colo, brincando.
Depois de tomar o café dele, iria trocar a fralda e a roupinha do Francisco. Enquanto isso eu iria ao banheiro sem pressa, lavaria o rosto e iria ver o figurino que o Jota escolheu pro pequeno. Aposto que seria o tiptop de panda...hehehehe.
Aí faríamos a frutinha do Francisco, que o Jota daria pra ele comer. Depois ele prepararia o almoço, nosso e do Francisco. Ele escolheu fazer macarrão com um molho de cenoura e vagem que eu costumo fazer. Segundo ele, tem que ser uma comida que exija cortar e descascar bastante coisa. A papinha do Francisco já exige bastante, mas ele queria mais.
Depois do almoço, a gente ficaria brincando com o Francisco até ele ficar com soninho. Aí o Jota (depois de ter lavado a louça e limpado a cozinha, claro), iria ninar ele de pé, até ele cochilar. E ficaria com ele no colo no cochilinho da tarde, enquanto víamos o último episódio de Game Of Thrones, que sempre vemos atrasado.
Quando o pequeno acordasse, íamos fazer o passeio da tarde na Redenção. O Jota decidiu que ele empurraria o carrinho. No caminho, passaríamos na Maomé, uma confeitaria, eu pegaria uma tortinha de morango e ele um canudo de brigadeiro, pra comermos no parque. Na Redenção estenderíamos uma mantinha na grama pra sentar, brincar e fazer nosso piquenique. O Jota comeria o doce dele sozinho. Claro, eu daria uma bananinha pro nosso gordinho, que não consegue ver ninguém comendo sem pedir um pedaço (sério...o Chico faz uma cara de pidão que é im-pos-sí-vel comer na frente dele).
Voltaríamos para casa quando o sol começasse a baixar, no caminho não decidimos se compraríamos ingredientes pro Jota montar pizzas pra família toda ou se seria um fondue, pra ele comer sozinho sem derrubar o garfinho e tudo dentro da panelinha. Enfim, voltaríamos pra casa, convidaríamos a família toda pra ficar ali com a gente, conversando, tomando uma cerveja e preparando uma comidinha gostosa. Mas antes disso, tomaríamos nosso banho. Decidimos que, por gostarmos de tomar banho juntos, não mudaríamos isso. O que mudaria é que ele poderia dar banho em mim e eu nele, sem precisar de cadeira de banho, ajuda pra secar, vestir etc. Aí sim, eu daria a janta pro Francisco enquanto ele faria a comida.
Ele pediu se podia dar banho no Francisco nesse dia. Claro que sim! Nosso menino adora banho...faz uma festa, joga água pra todo lado. Então ele daria o banho e eu o mamá, depois do banho. Depois disso, colocaria o Chico no bercinho e poderíamos curtir a nossa noite. Afinal, não estaríamos completamente exaustos. O trabalho teria sido dividido ao longo do dia e teríamos energia pra curtir um ao outro. E (tirem as crianças da sala), poderíamos transar na posição que quiséssemos!!!
Esse seria o nosso dia sem esclerose. Ou com uma esclerose mais light pro Jota pelo menos.
Como vocês podem ver, eu faria bem menos coisas...hehehehe. Praticamente tudo que o Jota faria, sou eu que faço atualmente. Com o avanço da EM, o Jota tem usado a cadeira motorizada dentro de casa, mas fazer xixi, comer e tomar banho se tornaram impossíveis sozinho. Quer dizer, comer ele consegue, se a gente servir o prato e cortar os alimentos.
Enfim, não estamos reclamando do que temos, afinal, nos sentimos abençoados com a vida que nos é possível. Temos a benção de não sermos sozinhos no mundo, de termos um filho que é um anjo, de termos uma casa adaptada às nossas necessidades, de termos acesso aos tratamentos possíveis. Mas que parece bom, parece né?
Quando acabamos essa conversa eu disse que, quando estava na praia e vi um casal com um bebê um pouco maior que o Francisco, brincando na areia e na piscina do hotel, eu fiquei imaginando que poderia ser a gente, quem sabe, um dia...
Agora, pensando bem, acho que eu iria pegar o Francisco e o Jota, iríamos para o aeroporto e desembarcaríamos numa praia, pra passar o dia.
Ah, vocês viram que não desperdiçaríamos nem um segundo desse dia com trabalho? Isso mesmo! Afinal, quem segura nossa mão quando a EM chegasse, no fim do sonho?
Bem, só queria compartilhar nosso curtindo o dia adoidado. Que nem é tão doido assim. É muito trivial. Muito corriqueiro pra maioria das pessoas. Mas pra gente seria extraordinário!
Até mais!
Bjs

Em tempo: Save Ferris!!!

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Quem sou eu?

Oi pessoal, tudo bem com vocês?
Nas últimas semanas eu precisei preencher algumas fichas... ficha de inscrição, de entrevista, de cadastro. E em todas elas eu parava no mesmo item. Um item que sempre me deixa em dúvida há muitos anos. Porque o de estado civil eu e o Jota resolvemos no ano passado (antes eu ficava chateada de dizer solteira, mesmo vivendo uma vida de casada). O item que me pega é o da PROFISSÃO.
Sempre fico numa dúvida cruel sobre o que responder. Numa delas, era pra uma entrevista, e a moça que me perguntava disse: ah, fala aquilo que tu trabalha. Bah! Aí sim piorou. Porque eu trabalho num monte de coisas. Aí ela disse: então aquilo que tu considera que tu é! Aí acabou comigo... porque eu me considero tanta coisa...
Vamos lá... se eu responder aquilo com que eu trabalho, eu poderia dizer que sou blogueira, que sou escritora, que sou publicitária, que sou respondedora de emails, que sou conselheira, que sou pesquisadora, que sou estudante, que sou leitora... tudo isso é meu trabalho diário. E aí?
Agora, quando ela disse, diz aquilo que tu considera que tu é... bem, aí a lista aumenta muito mais. E o mais engraçado, é que nem sempre aquilo que eu sou tem a ver com aquilo que eu faço. Quer dizer, aquilo que eu considero o que eu sou não é o meu trabalho.
Eu sou esclerosada, por exemplo. E isso não tem a ver com trabalho. Tem a ver com algo que faz parte de mim, a esclerose múltipla.
Eu sou mãe do Francisco. E isso tem a ver com muito trabalho, porque ser mãe é trabalho de 24h, sem descanso. E é um trabalho lindo e gostoso. Mas não tem a ver com profissão. Tem a ver com o que eu sou. E com o que eu mais me orgulho de ser.
Eu sou esposa, companheira do Jota, outro esclerosado. E isso carrega mais um monte de coisas junto.
Eu sou ativista do movimento das pessoas com deficiência. Eu sou feminista.
Eu sou filha. Eu sou neta. Eu sou eterna estudante. Eu sou sonhadora. Eu sou uma chata de galocha perfeccionista. Eu sou uma leitora voraz. Mas eu escrevo mais até do que leio.
A gente é tanta coisa, não é?
Há alguns dias, conversando com uma amiga, também mãe, ela comentou: tu não sente que tu não é mais a Bruna, que é a mãe do Francisco? Tu não perdeu a identidade?
Pensei bem e na hora respondi: acho que não. Sinto que eu ganhei mais uma identidade. Mais uma coisa pra minha coleção de Quem sou eu. Mais uma coisa para ser, para fazer, para exercer, para amar ser.
E, ao mesmo tempo que eu sou essa mulher segura, que responde email enquanto faz papinha pro neném. Eu sou essa mulher que precisa de uma rede de apoio e de pessoas que digam: vai dar tudo certo! Você vai dar conta!
Porque ninguém É o que É sozinho.
Então, continuo com a minha dúvida na hora de preencher formulários. Porque eu sou muito mais do que minha profissão. Meu trabalho é muito mais do que aquilo que está escrito no meu diploma. E o que eu sou é muito mais do que cabem nos títulos de mestre ou doutora. Mas todas as trajetórias que eu percorri para conseguir esses diplomas fazem de mim o que eu sou hoje.
Coisa difícil essa de ser alguém né?
E aí as pessoas olham pra mim e perguntam: o que será que o Francisco vai ser? E eu respondo o que eu respondia quando eu era criança e me perguntavam o que eu ia ser quando crescesse: uma salsicha! Sim, eu era desaforada. Mas a verdade é que eu tinha muito uma noção de que eu ia continuar sendo eu oras. Um eu maior, mais velho, com mais experiências na bagagem, mas ainda assim, eu. E no auge dos meus 8 anos eu já sabia das coisas... porque não é que foi isso que aconteceu? hehehehehehehe
Continuo sendo eu, mas um eu muito, muito diferente.
Bom, voltando ao problema do trabalho/profissão, vejo que muitos de nós, que tem EM, acaba tendo um grande problema de identidade quando precisa parar de trabalhar por conta da doença. Simplesmente porque são pessoas que pensam ser o seu trabalho. Aquilo que a moça da entrevista me disse: é aquilo que tu é. Se o trabalho é aquilo que você é e, duma hora pra outra você não pode mais fazer, realmente deve ser algo muitíssimo difícil de aceitar.
Fico pensando no Jota, que é músico formado, guitarrista, que era professor de guitarra. Se o trabalho dele fosse o que ele era, no momento que a EM pegou, ele teria acabado. Sua vida teria acabado. Mas, ainda bem que somos muito mais que uma coisa só!
Tem gente que demora um tempo pra perceber isso. Tem gente que se prende tanto numa identidade que não consegue ser outra coisa.
Pois eu tenho dificuldade de ser uma coisa só. Ou duas. Ou três...
Se a esclerose é múltipla, eu sou muito mais!
Até mais!
Bjs

domingo, 16 de julho de 2017

Voltando

O que temos feito ultimamente!
Oi pessoal, tudo bem com vocês? Sentiram falta dos meus textos?
Bem, eu senti! hehehehe.
Estou morrendo de saudades de escrever no blog. Não porque eu ache que eu escreva grandes coisas ou coisas importantes. Mas porque eu pre-ci-so escrever. Escrever pra mim é uma necessidade, como tomar água, comer, dormir etc.
Desde que o Francisco nasceu escrevi pouco aqui, mas muito no meu dia a dia. Voltei a trabalhar (em casa) quando ele tinha um mês e desde então não conseguia me organizar para aquilo que era importante pra mim. Quer dizer, ficar com ele, cuidar dele, aprender a ser a melhor mãezinha que eu posso ser pra ele é o mais importante da vida agora. Mas tem aquelas coisas que são nossas, absurdamente nossas, e que eu sentia falta.
Aos poucos tenho voltado pra essas coisas. Já voltei a fazer pilates há dois meses, já tenho conseguido colocar minhas leituras em dia (nem tão em dia assim...mas tenho conseguido ler aquilo que eu quero) e diminui as tarefas no trabalho simplesmente porque se eu digo pra todo mundo que administrar a EM é administrar o ritmo de vida, eu tinha que ser exemplo e fazer isso comigo também, não é mesmo?
Esse post quase não é um post, é só um "oi gente, tô voltando". E tô voltando porque preciso. São tantas coisas acontecendo no meu dia a dia. Tantas pessoas com EM que passam por mim diariamente e que eu preciso conversar. Tantas mudanças, tantas transformações, tantas novas necessidades e sentimentos que eu não posso deixar guardado aqui dentro (escrevi sobre porque escrevo aqui nesse post, que eu gosto muito)
Vou pensando no que está acontecendo e as coisas toma a forma do texto mas os textos estão ficando todos na minha cabeça e estão tomando muito espaço. Então, se preparem, porque vou voltar a escrever aquilo que penso, sinto, experencio...
Coloquei como uma tarefa, como uma terapia semanal, que eu não posso faltar. Isso tá valendo pros vídeos do EM&eBebê também, que não serão semanais, mas vão ter uma regularidade. Vamos ver se eu consigo seguir.
Já tenho uma porção de coisa pra escrever, mas alguém tem mais alguma sugestão pra tia Bruna aqui?
Até mais!
Bjs

p.s.: continuem acompanhando a gente AQUI no youtube
p.s.2: leiam o relato da primeira viagem à praia com o Francisco aqui no Guia do Viajante Esclerosado
p.s.3: não percam os textos do Jota sobre paternidade no Blog do Jota

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Ser mãe é sentir-se Maria!

Olá amigos e amigas, tudo bem com vocês?
Bem, sim, vou novamente falar sobre maternidade. Porque hoje é isso o que mais me toca. Mas também porque logo logo é dia das mães. O primeiro em que passarei com meu filho nos braços, e podendo ainda abraçar a minha mãe e minha avó, e isso é um grande privilégio da vida. E também porque esse assunto me veio à mente e ao coração enquanto eu estava em oração e decidi compartilhar com vocês.
Quando eu ainda estava esperando a chegada de Francisco, expliquei a escolha do nome dele aqui no blog
e a minha forma pouca ortodoxa de rezar. Pra quem tem preguiça de ler o outro texto, sim, o nome dele é inspirado em São Francisco de Assis. E minha forma de rezar é diferente porque não tem nada de "vós que estais a olhar por nós..." mas está mais para uma conversa com amigos.
Nas minhas orações converso com papai do céu, com meu anjo da guarda, com meu amigo e irmão Jesus, com meu admirado amigo Francisco (o de Assis), com os amigos espirituais que acompanham o meu lar, com meu preto velho e com Maria. Não sou lá muito de santos, mas tenho esses companheiros, que me ouvem e acalmam meu coração.
Também não sou lá muito de pedir coisas. Acabo pedindo sabedoria e serenidade para lidar com as coisas da vida, porque tenho fé de que as coisas que acontecem, eu goste ou não, são para meu crescimento e aprendizado. Então, sou um tanto resignada às coisas e tento ter indulgência comigo e com os outros.
Pois bem, mas se tem uma figura para quem eu peço coisas, é pra Maria. Porque, vocês sabem, Maria é mãe. E... bem... mãe é mãe!
Durante a gravidez, me senti mais próxima de Maria. E sempre orava pedindo a ela que me ajudasse a ser uma boa mãe. Às vezes, em nossas conversas, eu falava pra ela que achava que deve ter sido bem difícil ser mãe de Jesus. Que grande responsabilidade né? Ser mãe de alguém que mudaria a humanidade. Perguntava se ela não teve medo dessa tarefa. E sabe que, ela sempre me respondia pra eu ter serenidade, que era isso que ela tinha e por isso não foi difícil, mas sim um privilégio.
E foi assim que eu levei a gravidez, com a serenidade da mãe das mães, sabendo que eu receberia um serzinho todo especial que me daria tudo o que eu precisaria para ser a melhor mãe pra ele.
Não acho que meu filho é melhor que o filho dos outros, e não sei como as outras mães se sentem com seus filhos. Mas eu me sinto um pouco Maria com ele nos braços. Longe de achar que ele é Jesus, mas ele é, como eu, um irmão também, com toda a capacidade de amar que um ser humano pode ter. E amor, amigos, também se ensina.
Pois bem, eu estava ontem, com ele nos braços, conversando com Maria e dizendo pra ela que agora eu a entendia. Sim, a responsabilidade é grande. Mas o amor é tão grande, que não dá espaço pro medo. E é importante que eu me sinta responsável, que eu dê importância a essa enorme tarefa.
Ser mãe, carregar o filho no colo, é sentir-se um pouco Maria. É saber que o amor maior do mundo está com a gente.
E é por isso que as mães dizem: só quem é mãe entende. Porque, por mais irritante que isso possa ser para quem não é mãe, realmente, tem coisas, que só quem é mãe entende. E isso não é menosprezar quem não é, quem escolhe não ser. É só um fato. A maternidade nos faz saber e sentir coisas que não existe outro jeito de saber e sentir. E isso é maravilhoso.
Essa serenidade me faz ter aquela maternidade leve que eu contei num texto anterior. E tem sido cada vez mais leve e mais gostoso. A cada dia que passa o Francisco interage mais com a gente. E eu olho pra ele sabendo que é um ser único, com suas vontades, com seu caminho a trilhar, com seus tombos a cair, com as dificuldades a passar. E eu sei que estarei aqui sempre para ele. Pra ensinar que frustar-se faz parte de ser humano. E que as vezes a gente sente que não tem forças. Mas que é pra isso que a gente tem mãe e família. Pra ter um colo quando precisa e pra recuperar as energias pra seguir em frente.
Ser mãe faz eu  me sentir um pessoa melhor. Com muito mais responsabilidades também. E muito mais feliz também. Além disso, se eu já admirava a minha mãe, faz eu admirá-la ainda mais, amá-la ainda mais. Porque ela também é Maria. Porque todas as mães são Marias do seu jeito.
Feliz dia das Mães!
Bjs

terça-feira, 18 de abril de 2017

Meus 100 metros

Oi pessoal, tudo bem com vocês?
Por aqui tudo ótimo! Ficar cherando o Francisco o dia todo é a mehor coisa do mundo!
Mas não é pra falar das alegrias da maternidade que tô digitando no celular hoje (poderia escrever um milhão de textos e ainda assim seria pouco pra dizer o quanto ser mãe me faz feliz). É sobre os meus 100 metros.
Sim, se você ainda não viu, tá na hora de ver o filme 100 metros, que tá disponível na Netflix (quem não tem netflix, faz aquele plano pra experimentar por 30 dias, só pra ver esse filme, faizfavor!). Resumindo, conta a história de um cara que teve o diagnóstico de EM no auge da carreira profissional, com um filho pequeno e a esposa grávida. Como muitos de nós, negou no início, fez a família sofrer com aquele momento de "só eu importo no mundo porque tenho uma doença" mas mudou de atitude depois de ouvir, de um companheiro de ambulatório (daqueles chatos pra caramba, sabe?), fazendo ou pulsoterapia, ou aplicação de algum medicamento como o Tysabri, que não adiantava fazer nada, em menos de um ano ele não estaria andando nem 100 metros.
Ao piorar e ver que estava realmente difícil andar 100 metros, ele resolveu (resumindo) que ia competir no iron man. Aquela competição de triatlon que o competidor deve fazer 3,8km de natação, 180km de ciclismo e 42km de corrida. Uma prova prum "homem de ferro" mesmo.
Impossível para alguém com EM, não parece?
Pois bem, não vou contar como ele se prepara para a prova, nem se ele consegue... descubra vendo o filme.
Quero é falar sobre os nossos 100 metros de cada dia.
Para mim, andar 100 metros já foi bem difícil. Só com bengala e ajuda de alguém. Mas confesso que não são os 100 metros percorridos a pé que me preocupam mais. Afinal, há muito tempo descobri que somos muito mais do que um par de pernas. Mas esses 100 metros que são as nossas responsabilidades, nossos sonhos, nossos desejos, nossos desafios, nossos medos, nossos obstáculos, nossas quedas, nossas vitórias.
Nunca fui fã de praticar esportes. Sempre fui aquela pessoa destra, com dois pés e mãos esquerdas pro esporte, sabe? E essa coisa de vida fitness também não foi feito pra mim. Faço pilates por obrigação e porque sei que faz bem pro meu corpo, mas não tenho o desejo de correr, pedalar ou nadar em uma competição. Mas me sinto uma vencedora do Iron man todos os dias quando deito a cabeça no travesseiro, ainda com o Francisco no colo, olho pro Jota deitado ao lado e penso: consegui!
Meu iron man já foi conseguir terminar a faculdade e trabalhar ao mesmo tempo. Depois foi ter um emprego regular, desses com hora pra chegar e sem hora pra sair na área de comunicação. Depois foi fazer o mestrado e manter o blog. Depois fazer o doutorado, manter o blog e namorar um cara de longe. Depois foi comprar uma casa, manter a casa, casar e cuidar da EM minha e do Jota. Agora tem sido cuidar da minha EM, do Jota, da casa, do casamento, do Francisco, do trabalho, do blog e da vida.
Tem dias que eu deito na cama de noite, olho pro Jota e digo que me sinto numa gincana, que acaba uma prova e tem que começar outra. Como no triatlon, quando você acaba a natação e acha que tá acabando, na verdade é só o começo do ciclismo.
Acordo com o sorriso mais lindo (e banguela) do universo, por volta das 7h da manhã, depois de acordar umas 2 ou 3 vezes de madrugada naquela dinâmica de bota no berço, tira do berço, embala, dá mamá, bota no berço... Mesmo levantando morrendo de sono, acordo feliz, por ter esse pacotinho de amor comigo todos os dias. Arrumo Francisco, troco de roupa, faço e tomo meu café e tenho a honra e o privilégio de sair caminhar com meus avós todas as manhãs. Aproveito cada segundo desse passeio matinal em que Francisco se encanta com cada árvore do caminho (prometo um post só sobre esses passeios). Chego em casa, dou mamá, arrumo as mamadeiras, brinco com Francisco e, pouco antes do almoço, na hora da sonequinha dele, pego o celular para responder os emails e ver as demandas de trabalho do dia.
Almoço quando minha mãe ou minha sogra pegam o Francisco no colo. E, ainda bem, não preciso me preocupar em fazer a comida.
De tarde, brinco com Francisco, dou mamá, trabalho e leio na sonequinha dele, resolvo as coisas da casa com o Jota. De noite tem o banho do Jota (e meu), a janta correndinho, o banho do Francisco, o mamá e cama!
No meio de tudo isso, tem os dias em que o Jota acorda pior e precisa de mais ajuda, ou, participa menos das atividades com o Francisco. Tem dias que eu tomo avonex, passo mal a madrugada inteira e fico o dia meio zumbi, mas tendo que fazer tudo, da mesma forma. Tem dias que a demanda de trabalho é maior, e eu choro porque acho que não vou conseguir entregar o que preciso. Tem dias que eu acho que não vou dar conta de andar meus 100 metros.
Mas aí eu lembro que a gente não anda esses 100 metros sozinhos. Que minha família tá junto comigo. Que eu tenho que ser forte por mim, pelo Francisco, pelo Jota. Que essa prova não é só minha e que muita gente tá envolvida nela, como no caso do filme.
Da mesma forma, quando o Jota começa a achar que não vai dar, eu mostro pra ele que essa prova não é só dele. Que muita gente tá envolvida nisso e que ele precisa persistir.
É verdade que às vezes dói. Que a gente chora. Que cansa. Que pensa que não vai dar.
Mas todos nós temos nossos próprios 100 metros diários a percorrer. E cada um de nós sabe como fazer, em quem se apoiar e como ir atrás.
Se seu sonho é participar de um iron man, vá atrás. Se é escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho, vá atrás também. Se é abandonar tudo e sair viajando pelo mundo, vá. Só não deixe de percorrer seus 100 metros, todos os dias. Alguns podem dizer que é loucura, que é impossível ou que não vale a pena. Mas só você sabe o que vale ou não pra você!

Ah, e sobre o filme... chorei litros. Me vi enquanto pessoa com EM, mas muito mais, confesso, enquanto esposa de alguém com EM. Só de lembrar do final do filme (tá, vou contar), quando aparecem imagens reais da história, e a esposa do Ramón chega com os filhos pra acabar a corrida com ele, me vi com o Jota, com o Francisco, com os filhos que queremos ter, juntos; lutando para conseguir nossos 100 metros diários, juntos, como deve ser, com aqueles que nos amam e nos apoiam ali, ao lado, apoiando, aplaudindo e carregando a gente no colo, muitas vezes.
Porque não é fácil. Não é simples. Mas é possível. E é possível sorrindo, vendo a beleza de cada momento, de cada aprendizado.
Nisso eu me reconheço em Ramón. Porque e

ssa foi a escolha que eu fiz. Não de fazer uma prova esportiva quase sobre humana, mas viver cada dia, com toda a humanidade que me cabe, com todo amor que sinto, com toda a leveza que viver merece e percorrer meus particulares 100 metros.
Até mais!
Bjs

quarta-feira, 15 de março de 2017

Maternidade leve


Olá pessoal, tudo bem com vocês?
Por aqui tudo ótimo!!!!!
Sinto falta de escrever mais no blog... mas acabo usando o tempo de vovó-babá para escrever o conteúdo da AME (isso...eu não esqueci do povo esclerosado, meu trabalho na AME é esse mesmo...escrever, escrever, escrever e responder a todos).
Bem, mas hoje resolvi testar escrever no celular. Francisco está aqui, fazendo seu cochilo no meu colo enquanto leio e respondo emails e tento escrever aqui hoje.
As pessoas têm me perguntado como tem sido a maternidade com EM. E eu só posso responder que tem sido algo ma-ra-vi-lho-so! De verdade! Sem exageros!
Não que não seja cansativo às vezes, ou que nada na minha vida tenha mudado. Pelo contrário...tudo mudou...e mudou para melhor!
Sobre a EM, ela tem me dado trégua. Voltei ao avonex mês passado (acompanharam nossos vídeos sobre amamentação?) e foi mais tranquilo do que eu imaginei. Não estou com nenhum sintoma...nem dor, nem fadiga...nada! Isso me permite me dedicar 100% ao Francisco. Quer dizer, quase 100, afinal, tem o trabalho, tem eu mesma, tem o Jota. Mas acho que tenho equilibrado bem os pratos.
Às vezes sinto como se devesse algo pra alguém sempre. Olho minha carreira acadêmica e penso que vai demorar pra ela engrenar mesmo. Olho pro meu trabalho na AME e acho que podia fazer mais. Olho pro Jota e vejo que só dar banho e ficar algumas horas por dia com ele pode ser pouco. Olho pra minha mãe e acho que a sobrecarrego pedindo ajuda pra eu poder comer e tomar banho enquanto ela fica com o bebê. Mas, mesmo achando que "devo" pra esse monte de gente, me sinto em paz e harmonia porque não devo nada ao meu filho, nem a mim.
Eu queria muito ser mãe. Mas nunca idealizei esse momento. Só sabia que queria ser e seria o que desse pra ser. Eu sabia que minha vida jamais seria a mesma e abracei essa mudança com todo amor que se pode sentir.
 Talvez por isso eu não me incomode em acordar as 6h da manhã, em esfregar fralda de cocô, em fazer mamadeira e dar de mamar a cada 4h (no início era a cada 2h), em brincar e manter conversas que só nós entendemos (sim, ele conversa bastante), em andar com seus mais de 7kg no colo pra lá e pra cá ninando ele.
Não me incomodo em deitar as 22h, junto com ele, nem em dormir uma noite toda com ele no colo quando o berço parece ter espinhos.
Me agarro nele e curto cada um desses momentos. Porque descobri, já no parto, que ser mãe é sentir saudade. Sinto uma saudade imensa daquele barrigão.
Ele tem só 3 meses...mas já cresceu tanto! Quando vejo um recém nascido já penso que ele foi daquele tamanhico...e bate uma saudadinha de quando ele cabia num braço só.
Mas também amo e vibro a cada novidade. Cada sorriso, gargalhada, som novo. Cada vez que ele tenta pegar um brinquedo com a mão. Cada beicinho que ele faz quando eu demoro pra pegar no colo. Cada festa que é todo banho, com água que salta pelo quarto todo. Cada roupinha que não serve mais porque tem uma dobrinha a mais nas pernocas gordinhas do meu pequeno.
Claro que dá trabalho. Claro que é diferente de tudo que eu já vivi. Mas eu não trocaria por nada nesse mundo. Não queria minha vida anterior por nem um dia. E se eu tivesse condições financeiras, queria ter mais uns cinco. Mas acho que só vamos poder ter mais um. Ou dois.
Ah sim, e sempre que eu digo isso, ouço aquelas "ameaças"de outras mães que dizem: tu diz isso agora...qd crescer vc vai mudar o discurso...isso passa...blablabla...
Bem, cresci ouvindo esse tipo de ameaça e elas não me assustam mais. Honestamente, quero dizer pras pessoas que falam isso o seguinte: para que tá feio!
Quando eu tava na quinta série, me falavam que era eu só ia bem porque essa era fácil, quando eu chegasse no ensino médio eu ia ver. Não vi nada. Depois era a faculdade, depois o mercado de trabalho, depois o mestrado, depois o doutorado, depois o namoro à distância, depois o morar juntos, depois o casamento... enfim, até agora tô "esperando pra ver".
Acho que, na verdade, as pessoas pegam suas frustrações e transformam em ameaça pro futuro das outras achando que estão dando um conselho.
A última "ameaça" que ouvi foi: agora tu tá achando tudo lindo...mas espera ter um surto ou o Jota piorar pra você ver.
Deu vontade de dizer: queridinha, meu marido mal consegue se mexer e tem piorado progressivamente, na minha RM apareceu uma lesão nova durante a gravidez, eu tenho essa p*** de EM há 17 anos...tu acha mesmo que tua maldição me assusta?
Porque, sinceramente, parece uma espécie de maldição. Ou de recalque...vai saber.
Talvez, chegando lá na frente, os outros até tenham razão e eu mude de posição. Mas até lá, vou levando tudo numa boa, com a certeza de que eu não preciso ter razão, mas me sentir bem.
Então, vou continuar aqui, com meus sonhos, meus planos, e minha maternidade leve. Talvez irritantemente leve para alguns. Mas para mim, deliciosamente leve e amorosa. Fazendo o que posso, como posso, enquanto posso. Francisco tem gostado assim. Eu também. E isso é que importa.
Até mais!
Bjs

domingo, 18 de dezembro de 2016

Carta ao meu Francisco, ou, um relato detalhado do parto

Era o dia 02 de dezembro de 2016. Acordei como em qualquer outro dia, tomei meu café da manhã, molhei as plantinhas do jardim e sentei para descansar um pouco. Subi na casa da vovó para amarrar o anjinho do dia no quadro de natal e, quando olhei para aquele calendário natalino pensei: acho que ele vai ser do dia 03.
Quando desci para fazer o almoço, senti uma contração um pouco diferente. Aí pensei: vai ver entro em trabalho de parto hoje e ele nasce de madrugada.
Foi quase isso.
Depois do almoço, as contrações tomaram ritmo e vinham de 10 em 10 minutos. Liguei pra médica obstetra e ela disse: quando tiver 2 a cada 10 minutos me liga. Ontem na consulta eu mexi em você, pode ser isso também. Já fazia 38 semanas e 6 dias que você estava na barriga da mamãe,então, ainda tinha tempo pra você vir. Mas a mamãe sabe das coisas. Eu sabia que você estava chegando. Falei pro papai tomar um banho e descansar, porque talvez precisássemos de muitas horas no hospital pra você nascer.
Subi pra casa da vovó e tomei um banho gostoso, conversando com você. Cantamos nossas musiquinhas. Alisei a barriga com carinho, porque sabia que no dia seguinte ela não estaria mais ali. Quer dizer, eu sabia que o maior amor da minha vida estaria do lado de fora e não mais ali dentro, mexendo e interagindo comigo daquela forma especial que só nós dois sabemos.
Depois do banho, as contrações vinham de 5 em 5 ou de 7 em 7 minutos. E começou a doer. A primeira que doeu mesmo, a mamãe achou que era um louca vontade de fazer xixi, mas não conseguia me levantar. Foi aí que ligamos novamente pra médica, que mandou a mamãe ir pro hospital.
Ligamos pro titio Caco, que veio buscar a mamãe, o papai e tuas duas vovós. A mamãe estava muito tranquila. Com a tranquilidade de quem sabe que tudo ia dar certo, que não precisava me preocupar com nada. Acho que no carro, meu filho, a pessoa mais tranquila era a mamãe.
Quando chegamos no hospital, a mamãe nem precisou dizer pro moço da recepção que ia pra emergência obstétrica. Uma contração forte veio bem na hora. Mamãe foi caminhando, porque era mais confortável ficar em pé, com o corpo levemente inclinado pra frente, do que sentada.
A mamãe subiu pro atendimento com a vovó Sônia, enquanto a vovó Leda ajudava o papai, montando a cadeira dele pra que ele pudesse ficar com a gente depois.
Na sala de espera pro atendimento, tinha mais duas gravidinhas, prestes a conhecer seus filhotes também. Elas perguntaram que horas você vinhas, mas a mamãe não sabia, porque ia deixar você vir a hora que quisesse. Elas acharam estranho a mamãe não marcar hora pra sua vinda. Mas era bem assim que a mamãe queria.
Antes de entrar pro atendimento, mamãe criou um grupo no whatsapp pra avisar a família e os amigos mais próximos que você estava chegando e estávamos na maternidade do hospital. Muitas pessoas te amam meu filho, desde a barriga da mamãe, e estavam ansiosos por esse momento também.
Mamãe entrou sozinha pro atendimento. A enfermeira viu que tava tudo bem com a mamãe e as 17:10h ligou um aparelho pra ouvir os batimentos do teu coraçãozinho e contar o número e intensidade das contrações da mamãe. Eu fiquei ali, deitada de lado, olhando pro monitor do aparelho e ouvindo o teu coraçãozinho por 30 minutos. Quando vinha a contração, teu coraçãozinho acelerava um pouco e a gente ficou conversando sobre como seria o momento da tua chegada.
A médica da mamãe ainda não estava lá, então, a Dra. Laura atendeu a mamãe e viu que tinha 4cm de dilatação. Pra você nascer ia precisar de 10. Então ela calculou e, como você é o primeiro filho da mamãe, podia demorar um tanto de tempo, e disse: acho que até a meia noite o Francisco tá aqui nos seus braços.
As moças (enfermeiras e técnicas) que atenderam a mamãe naquela primeira sala foram muito queridas com a gente. Deixaram a mamãe ficar sentada num bola de exercícios, embaixo do chuveiro. Ajudava bastante pra segurar a dor de cada contração. Foi quando a mamãe tava no chuveiro que o papai chegou pra nos acompanhar. Nesse momento a mamãe ainda conseguia conversar no intervalo das contrações.
Saindo do chuveiro, levaram a mamãe pra sala pré-parto. Um outro quarto. Lá colocaram um soro no braço da mamãe e a dra. Aline, médica da mamãe,examinou pra ver quanto tempo, maius ou menos íamos esperar. Já estávamos com 7cm. Em uma hora aumentamos 3cm de dilatação. Enquanto a médica examinava a mamãe, a bolsa de água em que você ficava se rompeu e saiu uma aguaceiro na cama. As moças da maternidade limparam a mamãe, trocaram o lençol e eu fiquei sentada na bola, me apoiando na cama. As vezes doía e parecia que eu tinha vontade de ir no banheiro. Mas eu sabia que era meu corpo fazendo força pra você vir.
As dores foram piorando. Ficando mais intensas e mais próximas. Antes demorara 10, depois 5, agora já estava de 2 em 2 minutos e a mamãe mal conseguia se recuperar da dor anterior quando vinha a próxima. A mamãe suava muito e tremia. Resolvi deitar na cama, apesar de doer mais deitada. Estava com medo de desmaiar, cair da bola.
Uma enfermeira perguntou quanto era o nível de dor naquela hora, de 0 a 10. A mamãe calculou em 8. Depois de tudo, ela disse que naquela hora já devia ser 12...
A anestesista não tinha chegado ainda. A gente calculava que você ia demorar mais pra nascer, porque você é o primeiro bebê da mamãe. Mas, novamente, em menos de uma hora, aumentamos mais 3cm de dilatação e você precisava vir. Conseguimos uma pediatra de plantão pra ajudar a mamãe a te receber. E, quando já tava praticamente na hora de levar a mamãe pra sala de parto, a "anja anestesista" chegou. Eu falei pra dra. Aline que precisava fazer força, que meu corpo não aguentava mais não fazer força. E quando fizemos força ali na sala pré-parto, você já estava dando sinais.
Correndo a anestesista atendeu a mamãe, que já não conseguia sentar mais sozinha, então um médico e uma enfermeira seguraram a mamãe sentada. A Roberta (a mamãe conseguiu ler o crachá dela na hora) foi quem colocou a cabeça da mamãe no ombro e lembrava à mamãe que precisava respirar. Ela foi um anjinho também, assim como a anestesista, que deu uma injeçãozinha nas costas da mamãe que aliviou a dor.
Nessa hora levaram a mamãe pra sala de parto. A mamãe tava com tanto calor e suando tanto que já tinha tirado toda a roupa. Na sala de parto trocaram a mamãe de cama, pra uma onde eu pudesse colocar as pernas pra cima e fazer a força pra você sair. O papai foi junto, e colocaram um roupa especial nele, pra ficar ali com a gente.
Como a mamãe já não sentia mais a dor, a médica disse: você está tendo uma contração, faz força! Eu fiz toda a força que conseguia fazer. Já emocionada porque logo iria ver você. Depois dessa ela disse: mais uma e ele vem. E foi assim mesmo. Na segunda contração, ali na sala de parto, você veio naturalmente.
Não abriu um berreiro, nem chorou. Você saiu da minha barriga para o meu peito, abriu os olhinhos quando eu disse "oi meu amor",  e fez um resmungo, como quem dissesse, tô aqui mãe!
Foi lindo! A mamãe não tinha muitas expectativas sobre o parto. Mas posso dizer que foi melhor do que qualquer coisa que eu imaginei. Do que qualquer coisa que eu já vivi.
Você ficou ali uns minutos, antes de cortarem o cordão umbilical e levarem você pra pesar. O papai tava o tempo todo com a gente. E chorou quando viu você no colo da mamãe.
Sabe, antes de ter você, eu via cenas de parto e não entendia como as mulheres não tinham medo de derrubar o bebê, tão frágil, do colo, logo após o parto. Hoje eu sei que a gente liga um chip quando colocam o filho no nosso colo e, do nada, a gente sabe exatamente como pegar nossa cria.
Antes de levarem você pra pesagem, pro seu primeiro banho, as vacinas etc. O papai voltou na sala de parto contigo no colo. Foi a cena mais linda da vida da mamãe. Teu papai, que achava que não ia conseguir te pegar, foi o primeiro a te levar dum lado pro outro no hospital. A mamãe foi levada para um quarto, esperar você chegar e
tudo foi feito sob os olhares atentos do papai, que estava ao teu lado, e das vovós e da dinda Raquel, que viram tudo através do vidro, fotografaram e filmaram e iam enviando pra mamãe poder ver também.
Eu ainda passei pelo mesmo vidro e pude olhar elas ali, tão emocionadas quanto eu.
Te esperei no quarto. Quando você chegou, até jantar a mamãe já tinha jantado. O papai ficou ali por mais um tempo.

A vovó Sônia dormiu com a gente na primeira noite. Ou melhor, ficou acordada comigo, admirando você o tempo todo.
O parto foi lindo, foi perfeito e a mamãe saiu pronta pra outro. Sem nenhum corte, sem nenhuma dor depois. Só carregando o maior amor do mundo nos braços.
Assim foi o nosso dia 02 de dezembro. O primeiro dia seu aqui na terra. O primeiro dia do resto das nossas vidas, com muita alegria e luz, meu Francisco.
Nós viemos pra casa no dia 04. E a mamãe tem que agradecer muito a toda equipe que nos atendeu. Além da dra. Aline, todas as enfermeiras e técnicas que atenderam a gente foram muito carinhosas. Todas mesmo. Queria ter dado um abraço bem apertado em cada uma das pessoas que passaram por nós naqueles dias e marcaram nossas vidas pra sempre.
A gente teve muita sorte (ou merecimento) de ter anjinhos com a gente nesses momentos. E nisso incluo a tia Cintia e a pequena Helena, que havia nascido um dia antes, nossas companheiras de quarto e que queremos acompanhar pela vida.
Jamais vamos esquecer o carinho e dedicação das profissionais da maternidade do Hospital Moinhos de Vento. Obrigada meninas!
E obrigada também a todos e todas que foram nos visitar ainda no hospital (tio Neo, tia Lígia, Luana, Everton, dinda Raquel, tio Eduardo, tia Tata, biso e bisa, vô Roni, tia Neyra, tia Lúcia, vovós Marília e Helena, além das vós oficiais que estão sempre com a gente, Sônia e Lêda. Em especial o Dinho Gu, que veio de São Paulo pra te conhecer. O papai só vinha pra casa pra dormir e estava aqui pra nos receber quando chegamos.
Assim foi o nosso dia 02 de dezembro. O primeiro dia seu aqui na terra. O primeiro dia do resto das nossas vidas, com muita alegria e luz, meu Francisco.
Com amor,
Mamãe.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Carta ao marido da jovem grávida

Aí o maridão lê seu texto e pede um espaço no blog pra fazer você chorar escrever.
Curtam, como eu curti, o texto do Jota aos papais grávidos:

Esse é um daqueles textos não programados; que vem de cascata (quem escreve sabe o que quero dizer). Entram no meio do seu dia já programado, bagunçando e deixando para depois tudo aquilo que você tinha elegido como prioridade. Escrever ganha ares de necessidade e precisa ser feito! É quase uma tromba d’água que cai de repente molhando de surpresa a roupa no varal. Algo que já existe completo no “mundo das ideias” e “só” precisa ser escrito. Depois de compartilhar a emoção da Bruna escrevendo sua carta à jovem grávida e lendo as coisas que diziam diretamente sobre mim, fiquei com vontade de escrever também ao marido da jovem grávida. Não tinha tanta noção do quanto algumas coisas que fazia meio que inconscientemente eram importantes para ela.

Carta ao marido da jovem grávida
Recentemente, quando uma amiga me confessou que estava grávida eu lhe disse: Parabéns! Antigamente, quando alguém me contava sobre uma gravidez, eu não sabia se felicitava ou consolava, mas hoje eu só parabenizo. Ser pai e acompanhar de perto uma gravidez é uma experiência fantástica. Então, se você é uma dessas pessoas: parabéns!
A dúvida tinha um motivo. Na adolescência, morria de medo de ser pai. Uma gravidez podia arruinar os planos que havia traçado. Não era um medo vivido individualmente, só meu. Era igualmente compartilhado por minhas namoradas. Era só a menstruação atrasar alguns dias para bater um temor na gente. Confesso que sentia um certo alívio mensal quando o ciclo se renovava e pensava: ufa! Não foi dessa vez. E lhes digo: é muito mais agradável fazer um teste de farmácia esperando que ele dê positivo do que negativo. Até sua namorada aparecer com a confirmação da “não-gravidez” na mão, parecem minutos intermináveis.
No entanto, o pavor da adolescência deu espaço às expectativas. Logo que começamos a tentar engravidar, vivíamos com alegria cada dia a mais sem sinal de menstruação. E quando a Bruna falava alguma coisa que não entendia direito ou anunciava que queria conversar comigo, já imaginava, ela ia me contar que não estávamos grávidos. (digressão surreal: ela me ligou agora para falar de uma Eco que tinha feito e só fiquei mais tranquilo quando ela falou que estava tudo bem. Ainda tenho esse pavor. Acho que ele vai me acompanhar pelo resto da minha vida como pai).
Felizmente, engravidamos logo no primeiro mês de tentativa. Imagino a frustração de um casal quando não consegue engravidar logo. Mas desde o começo colocamos que queríamos ser pai e mãe, independente da gravidez. A Bruna teve que parar a medicação e tínhamos um prazo médico para as nossas tentativas. Então a adoção era uma possibilidade bem presente, caso não conseguíssemos. Quem sabe um dia ainda seja realidade.
O Francisco foi cuidadosamente planejado, mas sabemos que nem sempre é assim que a banda toca. Uma gravidez inesperada pode atrapalhar a conquista de um objetivo idealizado. Mas vou lhes dizer: uma doença também! E tâmo aí! Então esse tal ideal só serve para continuarmos caminhando. A realidade é bem mais complexa e urgente. E você tem que escolher entre a realidade e o ideal.
Se escolher ser pai, talvez você possa passar a vida inteira se lamentando por um ideal não realizado. Ou pode aproveitar a experiência que a vida está lhe oferecendo e curtir quem realmente importa nesse momento: sua esposa e o filho que ela carrega no ventre. Certamente, tenho muita sorte de ter a Bruna como acompanhante dessa jornada. Uma companheira que sempre me fez colocar os pés no presente. Mesmo com todos os medos e inseguranças que se apresentam no processo da paternidade (e ainda mais da paternidade com uma deficiência) e sempre me lembrou e não deixava eu esquecer: “Ooooh, eu preciso de você aqui e agora”.
De nada adiantava eu ficar imaginando todas as dificuldades (o ideal nem sempre é o sonho do sucesso, às vezes está travestido de medo e insegurança. Pode ser pesadelo. Mas está sempre no futuro) que teria e esquecer-se de quem realmente precisava de você: a mãe de seu/sua filho ou filha ao seu lado. E essa é a primeira sugestão que dou aos maridos dessa jovem mulher grávida: esqueça do futuro, dos medos, dos objetivos. Sua vida é outra agora, tenha medo, mas vá com medo mesmo. Construa novos objetivos.
A gravidez pode ser esperada ou indesejada, mas, na verdade, você é mero coadjuvante nesse processo. Uma vez eu comparei a gravidez a um sonho: você pode estar presente na imaginação da outra pessoa, no entanto você terá acesso à narrativa do sonho unicamente se alguém te contar o que sonhou. A mulher grávida é como o sonhador. Você só saberá quando o nenê chutou, mexeu ou acordou se ela te contar. O sonho é dela e você alguém que se beneficia das palavras do sonhador.
E nesse sentido, cabe a você se interessar pela história que ela tem pra contar. E aí está a segunda dica: se interesse pela história. A Bruna nem sabe, mas adoro quando ela interrompe uma conversa que estamos tendo para dizer, olhando para a barriga: bom dia, filho! Sentir o primeiro movimento do dia deve ser algo mágico. Mas é uma coisa que não tenho acesso pela experiência, apenas pela narração. Só posso sentir a alegria que me toma quando vivencio essa cena; ver o carinho que a Bruna dirige à barriga etc. Isso eu posso sentir, e gosto.
Assim, como espectadores da natureza, fico meio sem entender àqueles que decidem não participar da narrativa; aqueles que abandonam, não se interessam e não vivem essa experiência. Mesmo que não programada, uma gravidez não tem nada a ver com você. Talvez seja fácil eu falar agora... provavelmente, não teria o mesmo pensamento na adolescência, enquanto a vida parecia um quadro a se pintar. No entanto, não é um ideal que constrói a nossa vida, mas o diário. E assim como é possível viver e batalhar pelos seus sonhos com uma doença, também é possível com uma gravidez não programada. No fundo deve escolher entre o ideal individual que se apresenta enquanto possibilidade ou um novo ideal construído coletivamente com sua família. Uma gravidez não esperada não significa abandonar seus sonhos, mas ressignificá-los. Sei lá, talvez não seja uma tarefa fácil, mas depois de tantos sonhos que adaptei às atuais condições por causa da doença, já estou craque e talvez você consiga se treinar um pouco. Essa é a terceira dica: Não abandone seus sonhos! Construa outros com sua esposa, namorada, ficante e com seu filho ou sua filha.
Outra coisa, a quarta dica: não se esqueça que a jovem grávida é, acima de tudo, uma mulher, com desejos, carências, manias, objetivos etc. – talvez mais exaltados no período, mas a mesma mulher de antes da gestação. Então me surpreende relatos de maridos que perderam o desejo na mulher ou que se afastam por alguma coisa. Não sei, talvez pra mim seja fácil, porque eu acho linda a Bruna grávida. Acho lindo aquela barriga nela. Pra mim, ela é a mulher mais linda do mundo e quero sempre estar ao lado dela, seja em carícias mais picantes, seja em “colinhos”. Não é uma dica do tipo “levante a autoestima de sua esposa”... não! Eu acho bonito mesmo! Mas entendo que cada caso é um caso, nem sempre a pessoa está feliz com seu corpo. Nesse caso, talvez você deva se esforçar para levantar a autoestima da jovem grávida. Não por pena, por amor!

Aqui estão só algumas dicas, mas não são regras. Melhor seria vê-las como sugestões. Certamente, a experiência pessoal e a dinâmica do casal podem avaliar melhor a utilidade dessas “dicas” e aperfeiçoar seus preceitos. São sugestões, não conclusões. Não são dicas do tipo manual (faça você mesmo ou faça assim, não assado). A gravidez e a paternidade são experiências incríveis e precisam mais de feeling do que receitas de bolo prontas.