sábado, 26 de maio de 2018

Divagações maternas

Momento de tranquilidade em um dia nada
tranquilo.
Oi pessoal, tudo bem?
Há algum tempo venho pensado mais sobre a maternidade do que a esclerose. Mas sempre que penso na minha forma de ser mãe e de como encaro a vida, a EM está ali, o tempo todo.
Fato é que ser mãe me transformou. Não mudou minha forma de ver a vida e as prioridades, apenas acentuou algumas crenças que eu já tinha. A de que as relações de amor da minha vida são prioridades sempre é uma delas. E por isso, em semanas como as que se passaram e que eu pouco produzi enquanto profissional, não me sinto culpada, porque sei que estou exercendo meu maior e mais importante trabalho da forma que eu escolhi: ser mãe.
Mas não e só na minha maternidade que tenho pensado. Tenho pensado nessa coisa de ser mãe e filha de um modo mais geral.
Há alguns meses uma menina (menina mesmo, com seus vinte aninhos) me procurou porque estava com suspeita de ter esclerose múltipla. Além de apreensiva com o futuro, ela estava um pouco chateada com sua mãe, que se mostrava em desespero frente à possível doença. Ela queria que a mãe fosse mais "controlada", mais compreensiva e desse o colo que ela precisava no momento. Claro que eu entendo ela, mas a perguntei: e quem é que está carregando a tua mãe no colo agora?
A gente exige das nossas mães que sejam nossos portos seguros, mas esquecemos que elas são tão humanas quanto nós e que precisam de alguém que diga "vai ficar tudo bem". E esse alguém, muitas vezes serão nós, suas filhas e filhos. Porque maternidade não é só doação, é parceria também. Principalmente quando os filhos crescem e já tem maturidade pra entender isso. Se bem que, como dizem nossas avós, tem coisas que você só vai entender quando for mãe.
E é a mais pura verdade. A gente só entende essa doação total de tempo, amor, carinho e vida quando tem um filho. A gente só entende a renúncia de si mesmo quando se é mãe. E isso não tem nada de ruim ou de absurdo. Ser mãe em muitos momentos é isso mesmo, é ser pro outro.
Aí você pode perguntar: mas você, toda feminista, não acha isso errado? Não! Acho que é isso mesmo e não precisa de muita explicação.
Há pouco tempo também participei da despedida de uma grande amiga e de sua mãe. Como toda despedida, foi triste e carregada de emoção. Mas o que me doeu lá dentro foi ouvir minha amada amiga dizer "mãe, pra quem eu vou perguntar as coisas agora?".
Quando nasce um filho não apenas nasce uma mãe, mas nasce com ela o medo de deixar esse filho. Até o nascimento do Francisco, meu maior medo na vida era o de não ter minha mãe por perto. Por mais que saibamos que todos um dia vamos morrer, independente da crença que temos sobre o que acontece depois, não queremos que aqueles que são importantes para nós morram. Eu lembro de chorar quando era pequena imaginando como seria se eu não tivesse minha mãe. E ficava ali, chorando baixinho embaixo das cobertas, por aquela menina que não teria pra quem perguntar as coisas.
Quando o Francisco nasceu meu medo mudou. Meu medo passou a ser aquele que até então eu não tinha. O medo de morrer. Medo de deixar aquele serzinho tão pequeno, tão indefeso sozinho. E depois que crescem, continuam precisando da gente, pra responder até mesmo as coisas que o google responder, simplesmente porque somos suas mães.
Pois bem, semana passada me vi com o Francisco nos braços, gemendo por mal conseguir respirar e olhava pra mim com um olhar de dor, como que pedindo "mãe, o que tá acontecendo?". Esqueci que eu mesma estava com febre e com dor e fui com ele pro hospital. Diagnóstico: crise aguda de bronquiolite. A primeira de muitas vezes em que ele ficará doente. Passamos o dia com ele no oxigênio (que inferno deixar aquele caninho no nariz dele), aspirando e tomando remédios até que no final da tarde pudemos vir pra casa, já bem melhor.
Nos corredores do hospital as pessoas diziam "a gente preferia que fosse com a gente né?". Eu confesso que concordava pra não aumentar a conversa. Mas, sinceramente, não sinto isso. Não senti em nenhum momento que eu deveria passar pelo que ele estava passando. Eu senti sim que eu deveria estar ali, o tempo todo, sendo seu porto seguro e dizendo pra ele que tudo ia ficar bem. Eu acho que a gente não tem que passar pelas dores que são dos nossos filhos. Talvez isso me faça uma mãe estranha...sei lá...
Durante o dia, enquanto ele dormia depois de conseguir respirar melhor, eu continuava cantando nossas musiquinhas. Vez ou outra ele abria os olhos, tentava tirar o oxigênio, sorria pra mim e continuava dormindo. Eu estava tranquila, minhas duas mães (minha mãe e minha tia) estavam na sala de espera pra me apoiar e cuidar de mim também. Olhando pra ele eu dizia: vai ficar bem meu amor, a mãe promete.
Na verdade, bem na verdade, a gente não pode prometer essas coisas né? Afinal, as coisas podem piorar. A gente pode não estar mais aqui logo ali em frente. E o que a gente achava que era ficar bem parece só piorar. Mas ainda assim eu prometo isso pro meu filho, porque quero que ele aprenda que as coisas ruins e difíceis fazem parte, mas que nunca estamos sozinhos pra passar por elas e que, logo ali na frente vemos que somos maiores que qualquer adversidade.
Quando os médicos me explicaram que ele pode desenvolver alguma doença respiratória como asma ou bronquite eu só pensava, ok, mais uma coisa pra gente aprender a lidar. Uma das médicas veio me elogiar pela minha serenidade enquanto eles faziam os procedimentos com ele gritando, pela minha tranquilidade sabendo que meu filho não estava bem. Eu disse a ela que só sabia ser assim, e que eu tinha tido uma boa escola em casa.
Não sei quantas vezes minha mãe chorou sozinha embaixo das cobertas com medo de deixar a mim e minha irmã sem respostas. Nem quantas vezes as lágrimas se misturaram à água do banho por não saber como ser força pras filhas que não estavam bem e precisavam de colo. Mas agora, sendo mãe, entendo um pouco melhor ela, minha avó, minha tia e todas as mulheres mães que me precederam.
Assim como ter esclerose me trouxe conhecimentos e atitudes que sem ela eu não poderia sem imaginar ter, a maternidade também faz isso com a gente. Por mais irritante que essa frase soe, tem coisas sobre a vida que só quem é mãe entende. E isso não desmerece quem não é e não quer ser. Só quer dizer que, bem, ser mãe é algo incrível, extraordinário e inexplicável. Só se sente e ponto final.
Até mais
Bjs

Em tempo: Lúcia, no fundo, a gente carrega nossas mães com a gente, e acho que é isso que faz com que sejamos tão parecidas com elas quando nos tornamos mães. Então, quando tiver aquela pergunta que só tua mãe poderia te responder, pergunta, que ela vai te responder, aí dentro de ti.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Pare, fale mas ouça também

Tá ou não tá uma gostosura esse gurizinho?

Oi pessoal, tudo bem com vocês?
Por aqui tudo bem. Francisco crescendo lindamente e eu me ocupando quase 24h por dia admirando esse crescimento e aprendizado que não é só dele, mas de todos nós que convivemos com ele.
Voltei semana passada de uma viagem linda à Natal. Fomos passar uma semana de férias, eu, minha mãe, minha irmã e Francisco. É sempre bom ficar desligado do trabalho, dos afazeres da casa, das responsabilidades diárias e se preocupar apenas em acordar, dormir, comer e ver qual vai ser o passeio do dia. Foi lindo ver as descobertas do Francisco com o mar, a areia (no ano passado ele brincou pouco, tinha apenas 5 meses), os animais (ele ficou encanado com a tartaruga no aquário e quase morremos pra tirar ele de cima de um jegue num passeio), as pessoas. E cada vez que eu vou à praia volto tendo a certeza que nasci no lugar errado. Eu sou do mar gente, certeza disso!
Mas voltando pra vida real, antes de viajar eu estava me sentindo muito cansada. A fadiga voltou a fazer parte dos meus dias e com ela alguns sintomas como formigamento no nariz em dias de muito cansaço. Estava até assustada pensando num possível surto. Mas como na praia não senti nada disso, percebi que é uma questão de descansar mais.
Mas aí, eu pergunto pra vocês, como faz pra descansar tendo um filho pequeno pra cuidar? Quem não tem filho talvez não saiba, mas a rotina de uma mãe é organizada pelos horários de sono, fome, fralda e brincadeiras da criança. Mesmo dividindo algumas tarefas com a família, a responsabilidade maior aqui em casa é comigo. E acredito que na casa da maioria das famílias seja assim também.
E aí vem aquele sentimento de algumas coisas que parecem faltar pra gente. Tem dias que eu sinto muita falta de escrever. Porque escrever pra mim sempre foi uma terapia. Mas de tanto não conseguir sentar pra escrever o que meu coração quer, estava me convencendo de que era bobagem. Comecei a questionar minha capacidade em escrever bons textos. E também fiquei pensando: pra que escrever mesmo? Tem tanta gente escrevendo sobre esclerose...tanta gente escrevendo sobre maternidade... tanta gente escrevendo sobre vida acadêmica... pra que eu vou ser mais uma pessoa escrevendo sobre essas coisas?
O Jota me lembrou algo que eu disse há alguns meses pra uma amiga que voltou a escrever sobre EM (força Marina!), que eu não deveria escrever porque os outros vão ler e concordar ou discordar, mas escrever porque é bom pra mim. Isso ficou martelando na minha cabeça. Afinal, não fui eu que escrevi uma tese de doutorado falando o quanto escrever tem um potencial curativo? Não curativo da doença física, mas de sentir-se melhor consigo mesmo.
Não por acaso, porque eu não acredito em acaso, recebi alguns emails nos últimos dias de pessoas que estão descobrindo a EM e leram meu blog nos últimos dias. É bem legal receber mensagens assim, porque dá um gás pra continuar escrevendo. No meu caso, deu um gás pra eu voltar a sentar na frente do computador e escrever livremente, sem medo de que as pessoas concordem ou não com o que eu digo. Obrigada a todos e todas que me escreveram nos últimos dias, os emails e mensagens de vocês foi de fundamental importância para eu organizar um calendário de posts novo e pensar em novos vídeos para o canal (será gravado amanhã, sem falta).
Escrever exige vontade e disciplina, mas também tempo. E nesse mês das mães, vendo os comerciais lindos (de chorar mesmo) sobre maternidade, eu me emociono mas também me pergunto quem apoia as mães para que elas possam ser elas mesmas e possam ser apoio e exemplo para os filhos. Eu confesso e abro meu coraçãozinho e intimidade da minha família pra dizer que ontem à noite tive uma séria conversa com o Jota sobre isso. Porque eu cresci ouvindo que eu sou foda, que eu sou capaz de tudo, que eu sou forte, que eu sou guerreira. Só que chega uma hora que a gente cansa e não quer ser a super mulher que os outros desenham. Eu me sinto mal porque eu sei que se dependesse da vontade dele a coparentalidade seria uma super realidade aqui em casa. Mas o corpo físico e a EM dele não permitem isso. E eu me sinto uma megera por falar pra ele como eu me sinto cansada sabendo que ele vai se sentir mal por não poder fazer muita coisa. O que ele não sabe é que me escutar, dar o peito pra eu deitar e secar minhas lágrimas já é bastante coisa. Às vezes o que uma mulher-mãe cansada quer é apenas falar o que incomoda, sem julgamentos e sem soluções mesmo. Só ser ouvida.
Eu sei, o texto de hoje virou uma miscelânea estranha. Desculpa. É que eu precisava recomeçar, mesmo sem um tema específico. Eu precisava falar. Sem ordem, sem início meio e fim. Às vezes é isso que a gente precisa. Escrever sem a pretensão de ser lida. Escrever pra esvaziar a mente e o coração.
Se alguém estiver lendo, obrigada por me acompanhar até aqui. Se eu puder dar um conselho pra você é: encontre alguém que te escute e, sempre que alguém te procurar para falar, escute essa também essa pessoa.
Até mais
Bjs

Em tempo: resgatei a leitura de um texto meu e continuo gostando dele: http://esclerosemultiplaeeu.blogspot.com.br/search?q=porque+escrevo

domingo, 25 de março de 2018

Seminário Educação sem preconceito - Minha participação


Oi pessoal, tudo bem com vocês?
Sim, eu sei...prometi escrever mais e não tenho escrito. Mas, como dizem, a gente escreve mais quando se está triste, porque quando se está feliz, a gente vive...hehehe
Bem, estou muito bem mesmo. Tenho trabalhado bastante, participado de alguns eventos e isso me enche de alegria. Às vezes eu paro e penso em como eu tenho me tornado as pessoas que eu admiro. Quer dizer, sempre admirei mulheres que sobem num palco e falam com segurança de um assunto que dominam. E, de repente (tá...nem tão de repente assim), me vejo fazendo isso. Sem falsa modéstia, tenho me considerado um sucesso. E espero que esse sentimento permaneça comigo.
Um dos motivos para eu estar assim, felizona, foi eu ter sido indicada por duas queridas amiga (Fernanda e Vitória) para falar no Seminário Educação e Preconceito, que aconteceu na última quinta-feira na Assembleia Legislativa aqui do RS. Quando me dei por conta, eu tava lá, sentada no palco, ao lado de mulheres ma-ra-vi-lho-sas, com histórias de vida lindas, para representar as mulheres com deficiência naquele debate. A responsabilidade era muito grande e me senti absurdamente honrada com a indicação e a confiança. Saí de lá com o sentimento de esperança, além de ter recebido muitos abraços verdadeiros, daqueles que nos envolvem e transmitem amor, sabe?
Bem, quero compartilhar com vocês todas e todos, que não puderam estar presente, a minha fala. Preparei um texto para não me perder no momento e é esse texto (textão) que deixo hoje pra vocês. Espero que gostem, que se sintam representadas também. E quem tiver facebook, pode ver o Seminário na íntegra no facebook: (sugestão: pega um lencinho!)




Boa tarde a todas e todos, antes de tudo, gostaria de agradecer a oportunidade e dizer da honra que sinto em ocupar esse lugar hoje. Obrigada!
Bem, estou aqui como mulher, como mãe, como professora, como pessoa com deficiência para falar sobre educação sem preconceito. Confesso que não é fácil dizer em pouco tempo tudo que se tem a dizer sobre o tema preconceito, educação e deficiência. Mas tentarei falar, a partir da minha experiência enquanto mulher com deficiência e pesquisadora do campo, alguns tópicos que me parecem ser importantes.
O tema da inclusão da pessoa com deficiência em espaço escolar me surgiu muito cedo na vida. Mais precisamente quando eu tinha meus 7 anos e fui para a escola regular e minha irmã, com deficiência intelectual, foi para a escola especial. Certo dia ela perguntou para a minha mãe: mãe, porque eu não vou pra mesma escola da mana? E tem gente que acha que ela é bobinha... Eu com 7, ela com 9 anos, nos vimos diferentes pela primeira vez. A escola estava nos dizendo que não pertencíamos ao mesmo lugar. Minha mãe não se viu por vencida e lutou para que ela pudesse ir na mesma escola. A luta não foi totalmente em vão, mas na época, o máximo que conseguimos foi uma turma especial. Uma inclusão completamente excludente. Ouvi a minha própria professora dizendo no corredor da escola: “Deus me livre dar aula pros loquinhos”.
Anos depois, quando ela chegou da escola de artes com o olho roxo, tivemos de ouvir da direção da escola que o menino que bateu nela não tinha culpa, afinal, ela é quem não era adequada ao lugar. Quando um familiar um dia pediu pra ela, que não foi alfabetizada ler algo em uma embalagem na mesa do café, ela saiu correndo. Vi ela perguntar pra minha mãe porque as pessoas só gostam de quem sabe ler.
Pouco tempo depois, eu tive o diagnóstico de uma doença degenerativa, incurável e que causa diversas deficiências. Estava no ensino médio e fiquei muito tempo internada para fazer tratamentos, perdi movimento de braços e pernas e parte da visão. Vivi isso nos meus últimos anos dentro da escola e não tive atenção nenhuma da escola. Pensei em parar de estudar. Era muito duro saber que todos estavam olhando para mim e fazendo de conta que eu não estava ali.
A deficiência em sala de aula, tanto na educação infantil quanto no ensino médio é algo muito complicado. A maioria dos professores e diretores preferem nos tratar como se não estivéssemos ali. Porque se eles perceberem nossa presença, sabem que terão mais trabalho. O professor que se depara com um aluno com deficiência sabe que não vai poder dar a mesma aula que ele tem preparada há anos para alunos daquela série, com aquela idade. A deficiência dá medo, em alguns dá nojo. A deficiência continua sendo para as escolas uma atração de circo dos horrores. Todos enxergam, todos veem, todos apontam, mas ninguém quer perto de si. Hoje minha deficiência é invisível, afinal, não preciso mais da minha bengala por conta da mobilidade reduzida. Mas nunca me senti tão invisível aos olhos do mundo do que quando precisei de cadeira de rodas ou bengala.
O movimento das pessoas com deficiência tomou mais corpo a partir da década de 1970, quando começamos a entrar nas universidades. Mais ou menos junto com a terceira onda do movimento feminista. Mas é importante salientar que pessoas com deficiência da minha geração e de gerações anteriores a minha chegaram aos bancos da faculdade por conta de um esforço tremendo de nossas famílias para que ali chegássemos. Não foi nenhuma lei ou política pública que nos permitiu acesso a esse lugar.
Hoje estou no meu pós-doutorado em Educação. Divido a alegria de ter colegas cegos, surdos e com deficiência física no campus. Mas compartilho, principalmente, a dor de não ser bem vindo nesse espaço. Atualmente temos leis que nos garantem o direito à educação, temos políticas públicas como a reserva de vagas tanto no vestibular quanto nos programas de pós-graduação, mas não temos acessibilidade arquitetônica nas escolas e universidades, não temos acessibilidade metodológica e não temos, principalmente, acessibilidade atitudinal.
Até agora falei mais de espaços de educação formais, como a escola e a universidade, mas acredito que temos que lembrar dos espaços de educação não formais, que é o mundo inteiro. Aprendemos a todo momento, a todo instante com nossas experiências. Mas como uma criança com deficiência vai aprender algo com o mundo se ele não é acessível? Nossas atrações midiáticas não são acessíveis, nem nossos museus, nossos cinemas, nossos parques. Nem para crianças, nem para adultos.
Quando saímos na rua e percebemos que não podemos entrar num bar, num teatro, num museu, lemos, claramente o aviso: “você não é bem vindo aqui”. Isso vai nos machucando, nos calejando. E se não temos famílias que nos apoiem, é muito, muito fácil nos fecharmos em nossas casas. Não são todas as famílias que têm a visão de que o espaço público é para todos e todas, com e sem deficiência. Muitas pessoas com deficiência não saem com medo de incomodar, porque ouviram tantas vezes que elas incomodam que acabam acreditando nisso.
Muitas crianças com deficiência não vão à escola porque as famílias ouviram que não adianta levar, que ela não vai aprender. Que é melhor ela ir pro médico, pro fisioterapeuta, pra fonoaudióloga, pra psicóloga para ela “melhorar”. Acredito sim que tratamentos especializados são importantes, mas a participação social é enriquecedora. Não queremos ser medicalizados, esquadrinhados, colocados em rótulos de diagnósticos e prognósticos que digam até onde podemos ir, ou o quanto podemos aprender. Queremos apenas viver.
E aí, quando uma de nós chega a um lugar de destaque, ou consegue fazer algo grandioso como ser mãe, a sociedade nos coloca em um grande pedestal dizendo: que exemplo de superação, como ela teve sorte. Pois eu lhes digo, não é nem uma coisa nem outra. Não é sorte, é trabalho. É muito trabalho. É uma luta constante e de muitas pessoas. É uma luta que vem lá da década de 1970 com os primeiros movimentos pró inclusão. E não é superação, porque nós não queremos superar a deficiência. Ela faz parte de nós, parte das mulheres que nos tornamos. A deficiência não é algo é ser superado e curado. Ela faz parte de nossas vidas e precisa ser vista, falada e aceita como parte de nossas identidades.
Doenças e deficiências em nossa sociedade foram narradas durante muito tempo apenas pela medicina. E até hoje acreditamos muito que é a medicina que tem que dizer sobre nós. Mas, no movimento da pessoa com deficiência temos um lema: nada sobre nós sem nós. Quem deve falar sobre a experiência da deficiência somos nós. E não a medicina que apenas quer nos consertar e que, muitas vezes nos vê apenas a partir da falta. A escola aprendeu com a medicina a nos ver a partir daquilo que nos falta, seja o movimento, a visão, a audição ou a capacidade cognitiva. Nós aprendemos convivendo com outras pessoas com deficiência a ver o que importa. E o que importa não é a falta. São as potencialidades.
Muitas pessoas dizem: eu não tenho preconceito com a pessoa com deficiência. Mas é só ver uma pessoa com deficiência chegar ao topo para dizer: que lindo, que comovente, nem parece que tem uma deficiência. Há duas semanas o grande físico Stephen Hawking morreu, e eu quase surtei diante de tanto capacitismo. Esse é o nome dado ao preconceito a pessoa com deficiência. Era tanto “nem parece que ele tinha uma doença ou que lição de vida, precisamos ter vergonha de reclamar da vida”, que dava até um enjoo.
As vezes as pessoas dizem, mas eu falei sem a intenção. Então eu ensino o seguinte teste, principalmente para mulheres, que em sua maioria, sofrem com o machismo. Se você for comentar algo sobre uma pessoa com deficiência e trocar pela palavra mulher, fica parecendo preconceituoso? Tipo, ficou tão bom o trabalho que nem parece ter sido feito por uma mulher. Então, pronto, é capacitismo.
É importante lembrarmos que somos iguais em nossos direitos. Que toda pessoa tem direito a educação, a saúde. Mas para que isso se efetive, temos que tratar cada um de forma diferente, de acordo com suas necessidades, para que tenhamos uma equidade. Tratar diferente os diferentes para que se tornem iguais.
Vejo professores, tanto de escolas como de universidades, reclamando porque tem que adaptar suas aulas aos seus alunos. Fico espantadíssima com isso, porque eu sempre pensei que o mais importante no processo de educação fosse que o aluno aprendesse, logo, independente do caso, sim, é lógico que devemos adaptar nossas aulas e ferramentas para que o aluno aprenda. Se o importante fosse saber se o professor sabe o conteúdo, aí sim, a aula seria voltada a necessidade do professor.
Voltando a minha experiência, quando eu voltei pra escola, mal conseguindo segurar uma caneta na mão, pedi para gravar em áudio as aulas, já que teria que decorar tudo. Não foi concedido, porque não estava nas normas da escola. Pedi mais tempo para realizar as provas. Não foi concedido, porque não estava nas normas da escola. Pedi autorização para ir ao banheiro fora do intervalo, porque eu não tinha controle de bexiga. Não foi concedido, porque não estava nas normas da escola. E isso tudo me causou constrangimentos e problemas desnecessários. Afinal, que raio de norma é essa que causa sofrimento ao aluno?
Estamos ainda muito ligados a normas que não pensam na diversidade em sala de aula. Em regras que não vislumbram pessoas com diversas necessidades e diferenças em nosso mundo. Desenhamos espaços, escolas, universidades, serviços de saúde, atrações artísticas e midiáticas sem lembrar das pessoas com deficiências. E sem lembrar que doenças e deficiências não são privilégios nem questão de sorte e azar. Atingem toda nossa sociedade. Porque se eu não posso conviver com todas as pessoas porque elas não têm acesso a todos os lugares, eu perco com isso.
Fiz meu estágio docente do doutorado na disciplina de inclusão, e me arrepiava cada vez que uma aluna chegava dizendo: tenho X alunos e tantos são de inclusão. Como assim? Os demais são de exclusão? A inclusão social não é apenas para a pessoa com deficiência. A reserva de vagas não é só para quem as usa. É para que toda a sociedade possa conviver com as diferenças e aprender a viver com elas.
Se hoje muitas pessoas se veem em desespero ao se deparar com uma doença ou deficiência, achando que é o fim de suas vidas. Ou, se muitas pessoas ainda acham que pessoa com deficiência vivendo plenamente e feliz é exemplo de superação é porque cresceram sem ter esse contato. Muitos adultos de hoje passaram uma infância e adolescência sem nunca ter convivido com alguém com deficiência. E isso explica o medo de muitos ainda ao se aproximar e falar com alguém com deficiência. Isso explica o medo que nossos professores em escolas e universidades têm quando nos veem sentadinhos em suas salas de aula.
Conviver com pessoas com deficiência torna o que era desconhecido, natural.
Muitas vezes as pessoas nos dizem: mas eu não sei como ajudar alguém com deficiência. Pergunta! Não é feio não saber. Feio é querer continuar na ignorância.
Bem, eu comecei minha fala dizendo que eu falaria também como mãe. Há um ano e três meses eu e meu marido, que também tem deficiência, trouxemos o Francisco ao mundo. Uma grande responsabilidade. Ato que foi considerado por muitas pessoas uma loucura, afinal, duas pessoas com deficiência com um filho... quem vai cuidar? Pra que isso? E se ele tiver uma deficiência também? Essas foram algumas das perguntas que ouvimos.
Antes de engravidar eu sabia que eu queria ser mãe. Apenas isso. Do filho que viesse. Ela podia ter deficiências, doenças, o que fosse, porque eu sei que a vida de alguém com deficiência e doença vale tanto quanto qualquer vida. E porque o mundo tá tão caótico que eu queria poder educar alguém para ajudar na luta por um mundo melhor. Sei de mais mulheres com deficiência que tiveram o mesmo problema que eu: encontrar uma equipe médica que aceitasse acompanhar. Encontrar um serviço de saúde que fosse adequado. Sobre o direito da mulher com deficiência ser dona de seu corpo, sua sexualidade e seu direito a maternar é outra conversa importante, que talvez não seja o momento.
Francisco, que deve estar tirando seu cochilo agora, é uma criança feliz, que chama todo cadeirante que vê na rua de papai, porque a cadeira de rodas pra ele está ligada a alguém a quem ele tem muito afeto. Ele não sabe que a sociedade pensa que a tia dele, deficiente intelectual com esquizofrenia não alfabetizada, não serve pra nada, e a primeira palavra dele foi Tata, pra chamar essa tia amorosa que fez toda diferença na trajetória de vida da mãe dele e que certamente fará na dele. Porque, sim, minha irmã, a gente ama quem não sabe escrever. Nem todo conhecimento que importa no mundo é letrado. Ele vai saber desde pequeno que ficar internada no hospital para tomar remédio é rotina da mamãe, que fazer fisioterapia e tomar remédios é a rotina do papai. Eu quero que ele saiba não apenas respeitar, mas reconhecer as diferenças como potencialidades. Que na escola que ele frequente no futuro a diversidade seja um valor a ser exaltado. Que as crianças com deficiência que frequentem essa escola brinquem, se divirtam e não sejam limitadas pelos seus diagnósticos. Eu quero que ele possa ser quem ele quiser. E não me refiro apenas a questão da deficiência. Eu quero isso pro meu filho, e pra todas as nossas crianças. E se ele tiver uma deficiência, eu não quero que ele passe pelos mesmos constrangimentos que eu passei e que o pai dele tem passado na universidade atualmente. Quero que a luta das nossas crianças seja pela continuidade do direito a diversidade.
E pra isso, eu preciso do entendimento e do engajamento de toda uma sociedade que precisa parar de ignorar a pessoa com deficiência e, quando olhar para ela que não sinta pena ou medo. Obrigada!

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Viver com a deficiência do outro

Oi gente, tudo bem?
Eu vivo com a minha EM há 18 anos. Há 9 eu convivo com a de muitos de vocês também. E há quase 5 com a do Jota. Muitas pessoas me perguntam como é ser casada com alguém com EM. Pessoas que nem sabem que eu tenho EM perguntam como é estar com alguém que está tão dependente. Quem sabe que eu tenho EM não consegue entender como temos um filho tendo todas essas limitações. Pois bem, hoje resolvi responder como é estar casada e ter um filho com o Jota.
Quando eu o conheci, ele andava de bengala, depois foi pras muletas, depois pro andador, depois pra cadeira de rodas quando ia passear e agora com a cadeira motorizada dentro de casa. Ele fica muito pouco de pé, só pra fazer a transferência da cadeira pra cama ou pra cadeira de banho. O problema não se restringe às pernas, já que o lado esquerdo todo já não responde e a mão abre bem pouco, impossibilitando movimentos.
Ele precisa de ajuda para quase tudo. Depois de muitas quedas no banheiro, decidimos que xixi seria no papagaio e isso facilitou muito a nossa vida. Ele come sozinho, com a ajuda de uma órtese no garfo e escreve sua tese de doutorado sozinho, quase sempre catando milho no teclado do computador ou ditando frases para o aplicativo que instalamos no tablet. Aliás, o tablet ajudou muito pra leitura, já que não precisa virar as páginas.
Faz fisioterapia em casa duas vezes por semana, mas nos demais dias capricha nos exercícios sozinho, pinta livros (aqueles que é pra desestressar) pra não perder a funcionalidade das mãos e faz exercícios de fono, para que consigamos continuar entendendo o que ele diz.
Em dias muito quentes, fica na sua Sibéria particular...que é o quarto com o ar condicionado ligado no máximo. Porque só assim consegue manter a cabeça funcionando bem.
Para cuidar dele nos revezamos eu e minha sogra. Antes da gravidez eu cuidava mais, levava a todos os lugares. Mas agora tenho nosso filho pra cuidar, pra fazer comida, pra trocar fralda, pra ficar de olho o dia inteiro e ainda tem o trabalho. Vocês podem imaginar o quanto é agitado o meu dia, não?
Tem dias que eu fico tão cansada que não vejo a hora de chegar o fim do dia, só pra deitar na cama e assistir a alguma série com o Jota, ou ficar ali, conversando com ele sobre nosso dia, nossos sonhos, nossos trabalhos, nossas angústias etc.
Não vou mentir pra vocês. Não é fácil. Mas vou ser sincera, já foi mais difícil
Era mais difícil no tempo em que ele ainda tinha sua independência mas carregava consigo um pessimismo e uma tristeza sem fim. No início do nosso casamento era bem mais complicado, porque eu tinha que ter alegria e ânimo por nós dois.
Eu usava a analogia da fogueira. Era eu tentando alimentar e aumentar a nossa fogueirinha o dia todo e ele jogando baldes e baldes de água nela. Teve momentos que eu pensei em desistir. Porque é muito ruim conviver com alguém que acha tudo difícil e que tudo é uma tragédia. Principalmente pra mim, que sou uma otimista incurável.
Com o tempo, a convivência e a constate piora física do Jota aconteceu uma mudança interna muito interessante. Acho que de tanto eu falar, ou melhor, demonstrar no dia a dia que nossa vida já está dando certo e que temos que seguir em frente, não importa o que aconteça, algo mudou nele também. Vocês podem ver nos textos que ele tem escrito lá no blog dele na AME que isso aconteceu mesmo.
Eu tento viver a fé que eu tenho em cada ato, em cada momento da minha vida. E é essa fé de que eu nunca estou sozinha e que tudo tem um propósito, mesmo que eu não saiba qual é, é que me faz sorrir mesmo nos piores dias. Porque sim, eles existem. E não é se ajoelhando em um altar ou repetindo rezas que está a minha fé, ela é a minha vida e a minha certeza de que tudo já deu certo e continuará sendo assim. Isso independe de religião, ou de que nome você dá. Eu chamo essa certeza cheia de amor e serenidade que tenho nos meus dias de Fé e de Deus. Mas você pode chamar do que quiser, ou pode nem chamar de nada, só sentir.
E o que isso tem a ver com ser casada com alguém dependente? Bem, tem muito. Tem muito porque é isso que me faz não ter desespero nos momentos de dificuldade. É isso que me faz acreditar que as dificuldades são momentos necessários para o nosso crescimento. E é isso que me faz ver as dificuldades como oportunidades e não como desespero. Tem a ver porque eu sei que estou com o Jota porque o amo e não por pena. Tem a ver porque eu não rezo pela sua cura, mas pela sua felicidade, e eu sei que cura e felicidade não são a mesma coisa e, muitas vezes, nem estão próximas.
Lá no início do nosso namoro, quando ele caía no chão pela falta de equilíbrio ficava extremamente triste, e eu tinha que ouvir por dias a fio sobre onde isso ia parar, que ele seria um fardo, que a dor moral de cair era horrível e assim por diante. Há alguns dias ele teve vontade de ir no banheiro fazer cocô... acontece que a pressa, mais a vontade, mais o calor não foi uma boa combinação e ele acabou fazendo nas calças, no chão etc. Outro dia, ele caiu no chão, de novo no banheiro, tentando fazer uma transferência para o banho. Eu, minha mãe e minha sogra o levamos até o quarto, arrastando num lençol, para daí colocar na cama. Afinal, nenhuma de nós três tem força pra tirar ele sozinha do chão. Tudo isso foi na mesma semana. E aí, de noite, depois de estarmos mais tranquilos, deitados para dormir, eu perguntei pra ele o que ele sentia quando caía. Se antigamente ele dizia que se sentia um lixo, dessa vez ele disse: eu me sinto muito amado, porque não estou sozinho nessa. Nem preciso dizer que me emocionei. E mais ainda quando ele disse que aprendeu isso comigo. Até me senti mais apta a ensinar coisas legais para nosso filho depois dessa. Parece que alegria e gratidão também se aprende. Ou melhor, às vezes a gente só precisa de uma ajudinha pra ver as coisas com outras lentes que não a da lamentação.
Então, quando alguém me pergunta como é ser casada com um cadeirante, eu sempre respondo: eu não sei, eu sou casada com o Jota, que é sim cadeirante, mas é muito mais que isso. Ele é um cara sensacional, que é meu companheiro. Se eu queria ter ele mais presente em alguns momentos? Queria sim. Se eu queria que ele pudesse sentir o que é fazer nosso filho dormir no colo? Claro que queria.
Quando fico em salas de embarque de aeroportos sempre fico reparando nas famílias, aquelas com pai, mãe e filhinhos, correndo de lá pra cá com suas malas, indo para destinos de férias em passeios que devem ser divertidos e, sim, eu fico pensando em como deve ser legal isso. Às vezes imagino o quanto deve ser fácil ou bacana essa espontaneidade de dizer: vamos sair? E simplesmente sair em família, sem ter que se preocupar com acessibilidade, banheiro, calor, remédios etc. Viver com uma deficiência não tem glamour minha gente!
Mas, como o Jota mesmo diz, a gente escolhe o que nos falta e o que nos sobra. E eu escolho ver que nos sobra muito. Muito mais do que falta.
Eu não sei como é estar casada com um homem não cadeirante, sem uma doença crônica, degenerativa. Mas eu sei que eu quero estar casada com o Jota, quero ter meus filhos com ele e quero que nossos filhos aprendam a ser uma boa pessoa, uma pessoa gentil, como ele. Tá, eu espero que nossos filhos sejam mais espontâneos e extrovertidos, como a mãe, admito. Mas acho que eles têm muito a aprender com o pai. Porque ser pai é muito mais do que pegar no colo e trocar fralda. Aliás, têm muito pai aí que não tem deficiência nenhuma e não faz isso também, não é verdade?
Bem, espero ter respondido. E espero que todas as pessoas que se relacionam com alguém com uma doença e/ou uma deficiência se relacionem com as pessoas e não com suas doenças. Porque quando a gente ama uma pessoa, seja marido, filho, amiga, parente... as dificuldades se tornam oportunidades de mudança, desafios de adaptação e nunca obstáculos para viver e ser feliz.

Em tempo: amo a ilustração desse post. O Vini, meu primo que trabalhou como designer pra AME também, fez para um post muito especial do Jota, que ajuda a demonstrar o que escrevi hoje também: http://amigosmultiplos.org.br/post/449/para-alem-motivos-e-intenc-es

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Nosso primeiro aniversário

Um ano. Trezentos e sessenta e cinco dias. Ou, uma vida!
O primeiro ano de vida de um filho é, na verdade uma vida inteira.
No dia 02 de dezembro Francisco completou um ano de nascimento. Mas já vivia antes, afinal, naqueles nove meses na minha barriga, tu já estava conosco, meu filho.
Ainda hoje, quando eu penso na gravidez, sinto saudade. Não apenas da barriga, ou daquela ansiedade gostosa por te conhecer. Mas de sentir que meu corpo gerava o teu. Uma coisa linda, mágica e muito louca. Eu sei que existe uma explicação biológica para isso. Mas para mim é algo mais milagroso que científico isso de meu corpo gerar o seu.
Hoje, quando olho pra você engatinhando, olhando pra mim e rindo, quase como pedindo "posso?" ou dizendo "to indo mãe", vejo que você é único mas ainda assim, parte de mim. E sempre será. Mesmo quando tiver seus 60 anos, continuará sendo parte de mim. E isso é algo que só as mães entendem.
Quando eu escrevi que ser mãe é sentir-se Maria, não sabia o quanto isso se intensificaria e sentiria isso cada vez mais forte em mim.
Nesse primeiro ano te recebemos pequenino, molezinho, murchinho...mas já nos primeiros dias eu sabia que você sabia quem eu era. Você foi crescendo, ficando mais firme, mais forte, mais fofucho e sorridente.
Um bebê lindo, simpático, que interage com todos, vai com todo mundo, ama música (e galinha pintadinha, claro). É incrível o quanto você é amável com todos.
E também é incrível o quanto você é saudável. Completamos um ano sem nenhuma dor, sem nenhuma doença, sem nenhuma assadura sequer.
É verdade que eu chego nesse final de primeiro ano bastante cansada. Ser mãe é tarefa de 24h por dia, todos os dias. E ser mãe e trabalhar nem sempre é algo fácil meu filho.
Voltei a trabalhar quando o Francisco tinha apenas um mês. Trabalho em casa e por isso pude me dedicar ao meu pequeno junto com o trabalho. Mas não foi lá muito fácil. Por isso acabei esse primeiro ano saindo de um dos meus trabalhos porque, como diz minha mãe, tempo é questão de preferência, e eu prefiro ganhar menos, apertar nas contas e estar com meu filho.
Sabe filho, muitas pessoas me questionaram e continuam questionando as escolhas que eu fiz pra gente nesse primeiro ano. Muitas acham que eu devia te colocar numa creche, outros acham que você não devia dormir no meu quarto, outros que eu devia dar doce pra você comer, outros que foi um exagero fazer festa de um ano pra você. Eu continuo em paz com todas essas escolhas e feliz por estarmos assim. Então, assim continuaremos até que a gente ache que tem que mudar.
Eu espero, meu filho, que a sua vida tenha muito desse teu primeiro ano: muita alegria, muito amor, muitas descobertas, muita curiosidade, muito aprendizado (pra você e pra todos nós que convivemos contigo).
Observo você tentando ficar em pé para caminhar e lembro de quando eu tive que reaprender a dar os primeiros passos. Ao contrário da maioria das mães e pais, eu lembro como é aprender a caminhar, a sustentar o corpo todo em pé e se equilibrar para dar um passo, e depois outro, e depois outro. E é por isso que eu sempre digo que você não precisa ter pressa. Pode ir no teu tempo que eu te entendo.
É difícil começar, é difícil aprender, é difícil caminhar. Mas quando você começar, vai ver que viver pode ser difícil às vezes, mas é maravilhoso também.
E, sendo fácil ou difícil, eu te garanto que amor nunca vai te faltar, nem alguém pra segurar a tua mão ou te fazer um cafuné.
Quando você nasceu, eu nasci como mãe. E senti que tudo que eu vivi até aqui era um treinamento. Um treinamento para a vida de verdade, que começou quando você chegou.
Feliz aniversário meu filho! Feliz primeiro aniversário!

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Encontro com Fátima Bernardes: nos bastidores

Com todos os entrevistados do dia

Olá pessoal, tudo bem com vocês?
Pra quem não viu ou não soube, ontem eu estive no programa Encontro, com Fátima Bernardes, na rede Globo.
(pausa para gritinhos histéricos)
Siiiiim!!!!!! Eu fui!!!!
Quem me conhece há algum tempo já me ouviu falando: "um dia eu vou na Fátima", ou, "quando eu for na Fátima", ou ainda, "nossa, isso era um tema legal de eu falar na Fátima".
De todos os programas de tv aberta, esse é o que eu mais acompanho. E não to dizendo isso só porque fui lá não. Mas porque eu vejo mesmo, adoro as discussões de gênero, raça, diferença e preconceito que se faz nesse palco. Fora a poesia do Bráulio Bessa, que eu choro logo que ele começa. É um programa super bem pensado. E, justamente por isso, eu queria ir na Fátima há pelo menos uns quatro anos...eheheheheh.
E como eu fui parar lá?
Bem, a Cíntia, uma pessoa queridíssima que foi minha colega de quarto na maternidade, enviou a minha história pra eles há um tempinho. Aí, há uns 20 dias me ligou uma moça dizendo: oi, eu sou a Nina, da Globo, e recebemos sua história como sugestão para o Encontro com Fátima Bernardes...
Naquele dia contei boa parte da minha história com a EM para ela e ela disse que ia passar tudo pra produção e se eles achassem legal colocar em alguma pauta, me ligariam.
Naquela noite, depois de colocar o Francisco no berço olhei pro Jota na cama e perguntei (como eu sempre faço): tá onde? E ele: Na Fátima! hehehehehehehe. Ficamos viajando se a gente iria mesmo participar e tal.
Pois bem, na semana passada a Vanessa me ligou: olá, aqui é da produção do Encontro, você teria disponibilidade de vir na próxima segunda-feira?
Oi? Sério mesmo? Claaaaaro!
E mesmo que não tivesse, eu dava um jeito de ter, afinal, era a Fátima né minha gente!!!!
A Vanessa também ouviu toda minha história, perguntou mais algumas coisas e me pediu algumas fotos de família e se a gente receberia alguém da equipe aqui em casa pra filmar a dinâmica da família.
Na sexta-feira recebemos o Manoel Soares, que fez a matéria com a gente e conseguiu umas imagens lindérrimas do nosso pequeno. Quem viu na TV sabe que aquele sorriso banguela do Chico no telão roubou a cena né?
O Manoel foi um querido e soube tratar nossa história com muito carinho.
Francisco e seu novo amigo Manoel Soares
Deixei tudo organizado aqui em casa e fui pro Rio de Janeiro no domingo à noite, para participar do programa na segunda de manhã.
Antes que alguém pergunte, tudo por conta da Globo sim ;)
Eu parecia criança pequena entrando em parque de diversão depois que passei meu crachá na catraca. Eu, que estudei telenovelas da Globo no mestrado, que vejo tv diariamente, que gosto de tv, entrando no Projac. Podem falar o que quiserem, eu achei o máximo!
Chegando lá conheci fui recebida pela Maju, uma queridona que depois do programa fez todas as fotos que eu pedi porque a câmera do meu celular resolveu parar de funcionar justamente lá, na Globo (só porque eu queria fazer uns vídeos a la Carol Paixão nos corredores). Também conheci pessoalmente a Vanessa e a Marina, as duas pessoas que entraram em contato comigo, ouviram minha história, e trataram com o maior carinho e dedicação as fotos e imagens para fazer uma edição primorosa de tudo. Muito melhor do que poderíamos imaginar.
Me levaram pra maquiagem e cabelo, que a Melissa fez com primor e me deixou lindona (sim, eu me acho linda mesmo) e depois fiquei numa sala com café e lanchinhos para esperar começar o programa. Foi aí que descobri que minha câmera parou de funcionar, quando liguei pra fazer uma foto com o Gabriel, um menino queridíssimo que vai pra
Maquiando com a Melissa
China, disputar o mundial de Kung Fu e era um dos entrevistados do dia (aliás, ajuda aí o Gabriel a chegar na China pessoal: Vakinha). Além da Regina Navarro Lins, que eu já tinha visto no programa da Fátima e no Amor e Sexo. Ficamos por ali até poucos minutos antes de começar o programa.
Confesso que quando entrei no estúdio tive um pouco de frio na barriga misturado com o encantamento de estar no cenário que vejo todos os dias na TV. Enquanto esperava, fiquei olhando praquele moooonte de gente trabalhando para colocar o programa no ar e pensando: meldels, é muito trabalho pra fazer cada um desses programas. E é diário. E é ao vivo. E dá tudo certo. Bem, só posso dar os parabéns mesmo, pra cada uma das pessoas envolvidas nisso.
Quando a banda O Terno entrou e se posicionou no palco, percebi que o cara que eu tinha "atropelado" no elevador do hotel era o vocalista da banda. Mas tudo bem, pedi desculpas pra ele...eheheh.
Quando a Fátima entrou no estúdio o frio na barriga já tinha passado. Quase quase quase chorei quando vi o vídeo com o Francisco e o Jota (reparem que quando eu vou falar ainda tá um pouco difícil). Mas consegui me manter controlada. E a Fátima... gente... sério... ela é muito boa na condução da conversa. Claro, vocês já sabem disso, porque assistem o programa. Mas estando ali, no meio da conversa, eu pude ver o quanto ela consegue colocar todos na conversa, na hora certa. Eu admiro muito essa habilidade em um comunicador. Então, fiquei ainda mais encantada por ela e pelo programa.
Adorei todas as pessoas com quem tive contato ali. Senti um carinho verdadeiro, sabe? Aquela empatia materna/paterna com a Fernanda Machado, a Juliana Sana e o Mouhamed Harfouch. Me senti acolhida. No aeroporto, conversando com uma pessoa que viu o programa e perguntou: mas você não achou estranho ficar no meio dos famosos? Bem, não achei não. São todos pais, mães, filhos, trabalhadores, pessoas como eu e você, mas que tem a vida muito mais exposta, e por isso devem até ser mais cobrados que nós, anônimos. Não me senti menor, menos importante ou à parte do que estava acontecendo.
Eu a Fátima
Depois fiz fotos com todos que estavam lá, afinal, não é todo dia que eu vou na Globo...hehehehe.
No caminho até o aeroporto fui olhando as mensagens recebidas no celular, no facebook, no email etc. E posso dizer que, se tinha me sentido bem e acolhida naquele palco, me senti muito mais com o carinho de vocês, meus amigos, meus colegas de trabalho, de faculdade, leitores do meu blog, pessoas que me curtem no face, que conversam comigo sobre suas vidas com ou sem EM.
Até agora, ninguém mandou nada achando ruim, ou dizendo que eu tinha que ter feito isso ou aquilo. Isso mostra a "qualidade" das pessoas que me cercam. Estou realmente emocionada.
Bem, só vi o programa hoje, e, lógico, hoje eu chorei, sozinha aqui na frente do computador. Quem não viu o programa todo, está disponível aqui nesse link: https://globoplay.globo.com/v/6220305/programa/
E vendo, achei lindo. Melhor que eu poderia imaginar. De verdade!
Por tudo isso, quero agradecer primeiramente a Cintia, minha colega de maternidade que viu na minha história um tema a ser contado pro Brasil inteiro. Valeu Cintia! Você foi parte essencial na realização do meu sonho de ir na Fátima ;)
Também quero agradecer toda a produção do programa, além da própria Fátima e convidados, que me receberam muito bem. Obrigada por me ajudarem a contar a história da minha família de uma forma leve e linda.
E obrigada a todos os amigos e amigas que compartilharam o vídeo um milhão de vezes, que tirou foto do aparelho de tv e me enviou, que torce pela gente e continuará torcendo, mesmo que eu não esteja na Globo.

É ou não é pra morrer de amores?


Até mais!
Bjs

P.S.1: eu já recebi várias perguntas malucas sobre a participação no programa e prometo responder em outro texto ou vídeo. Mas sim, a Fátima é super simpática e foi um doce comigo.
P.S.2: eu gostei tanto de ir que tô pensando em mandar meu Lattes... pessoal, eu sei falar sobre telenovela, representação de pessoa com deficiência, bioidentidades, autobiografia, identidades, maternidade, esclerose múltipla...ehheheheehhe.


terça-feira, 10 de outubro de 2017

A gincana diária de cada mãe


Oi pessoal, tudo bem com vocês?
Por aqui tudo ótimo! Estou cada dia mais acostumada e menos apavorada com a gincana materna. No último post eu falei disso e algumas pessoas me perguntaram: o que é isso que tu chama de gincana materna?
Bem, quem já participou de gincana escolar sabe como funciona: você precisa acabar uma tarefa para receber a próxima e assim vai seguindo o dia todo até o final. Tem tarefas mais difíceis, outras mais longas, outras que exigem deslocamento. Algumas dá pra fazer em grupo, outras é sozinho... enfim, não dá pra parar um minuto.
O primeiro ano (e talvez todos os outros também) do bebê é mais ou menos assim. Eu acordo no horário que o Francisco acorda, e para a minha felicidade, ele só acordou cedíssimo nos primeiros meses dele. Agora dorme a noite toda, mama as 6h e volta a dormir até às 8h. Aí é levantar, trocar fralda e roupa, limpar as mamadeiras enquanto toma café e aí brincar. Eu acabo indo pra minha mãe, assim o Chico fica brincando com o biso até a hora da frutinha. Troca fralda de novo. Depois ele volta a brincar e eu vou fazer a papinha do almoço. Cozinho todos os dias uma papinha fresquinha e nova. Depois de dar o almoço dele, troca fralda novamente e eu almoço enquanto uma das vovós fica com ele. Depois é brincar até ele se entregar pro sono (tem dias que demora e dorme só 40 minutos mesmo). Algumas tardes quem fica com a parte de trocar a fralda e ficar brincando até as 16h é a vovó, porque eu fico trabalhando, até esse horário, que é quando preparo a frutinha da tarde. Troca fralda de novo, brinca mais um pouco e logo vem a janta, por volta das 18h. Troca fralda, brinca mais um pouco e às vezes tem um cochilo. Tem dias que depois da janta dele eu saio pra fazer pilates e funcional. Aí chega em casa, tomo banho e dou banho no Jota (tem dias que chega esse horário e eu tô tão cansada que deixo o banho do Jota pra mãe dele), como alguma coisa, faço mamadeira da noite e da manhã, dou banho nele e deito junto, as 21:30. Sim, é cedo, mas costumo estar tão cansada quanto ele.
Como vocês podem ver, é bem cansativo. Nos dias que eu trabalho é mais ainda, porque me preocupo em fazer um milhão de coisas em três horas. Dia que saio de casa deixo tudo arrumadinho e, mesmo tendo a certeza que ele está melhor cuidado do que comigo, fico pensando nos horários e no que tem que ser feito, mesmo à distância.
É difícil de desligar da rotina.
Aí você pode pensar: que chatice! é todo dia a mesma coisa: só se preocupa com comida, roupa e fralda!
E eu te digo: errou feio...errou rude!
Porque nesse brincar, comer, trocar fralda, trocar roupa, dar banho e colocar pra dormir tem um monte de descobertas lindas, gargalhadas energizantes, olhares gostosos que não tem explicação. Agora, com 10 meses, ele já sabe o que gosta e o que quer pra brincar. Já chama o Gato ("ga"), a tia ("Tata"), sabe quem é a mamãe e o papai. Quando a gente ri de algo, ele imita rindo junto... já entende de regras sociais! Quando a gente vê algum show na TV e as pessoas aplaudem, ele para tudo pra bater palmas junto. Adora brincar de "esconder" e ri alto quando encontra a mamãe ou a vovó na brincadeira.
Cada dia é uma descoberta nova, um novo aprendizado. E eu não tiro o olho um segundo, pra não perder nada. Porque mesmo que seja cansativo em alguns momentos, dá uma energia inexplicável e sem tamanho ver meu pequeno crescer!
A maternidade tem sido muito leve pra mim. E eu já nem comento nada nas redes sociais, porque parece que no facebook ou no instagram só é mãe quem reclama, quem acha difícil, quem está sofrendo com todo esse processo. Pra mim isso tudo já era mais do que esperado. Aliás, eu esperava que fosse mais difícil. E tem sido lindo. Leve. Gostoso. Desafiador sim, cansativo às vezes, também. Mas não me identifico com quem fala do "Lado B" da maternidade. Porque pra mim existe só maternidade, sem lado A ou lado B.
Há alguns dias li que ser mãe é abrir mão de tudo e não perder nada. Acho que me sinto assim. Não sinto que tenha perdido nada. Tenho ganhado todos os dias. Ganho mais responsabilidades, mais preocupações, mas também mais alegrias, mais esperança, mais vida, mais energia, mais vontade de ser uma pessoa melhor.
Enfim, a gincana materna pode ser difícil as vezes. Tem noites que eu deito já pensando na rotina do próximo dia. Mas acaba que, mesmo sendo sempre a mesma coisa, é diferente a cada dia. E cada mãe e família desenvolve a sua própria gincana, com as tarefas que não podem ser esquecidas e as que podem ser ajustadas, adicionadas etc.
Ah, e nunca mais briguem com as mães de vocês por perguntarem a cada hora se você já comeu ou se tá levando um casaquinho. A gente fica tanto tempo se preocupando com a alimentação e roupa dos nossos filhos que deve ser difícil perder o hábito, mesmo 50 anos depois.

Até mais!
Bjs

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Porque não fui ao México


Em junho a AME foi convidada a participar do Terceiro Congresso Latinoamericano de Associações de Esclerose Múltipla, que se realizaria entre 26 e 28 de setembro no México. Iríamos eu e o Gustavo, nosso superintendente (meu irmão de coração e compadre). Só não aceitei o convite na hora porque precisava conversar em casa e ver se todos topavam, afinal, a responsabilidade dos cuidados diários do Francisco, meu filho de 9 meses, teria que ser compartilhada por quem ficasse. Todos aqui em casa toparam e assim, aceitei com muita alegria o convite. Seria maravilhoso discutir esse tema que me é tão caro com pessoas que também trabalham em prol da conscientização e de melhor qualidade de vida para quem tem esclerose múltipla, num dos top 10 de países que quero conhecer.
Fui me preparando psicologicamente nos últimos meses para ficar longe do meu filho por uma semana. Já estava mais calma com isso quando entrou setembro, e mesmo tendo tido um terremoto no México no dia 08 de setembro, estava tranquila, afinal, tinha sido longe da cidade onde eu ficaria. Rezei pelos 98 mortos e suas famílias e continuei meus dias, aguardando mais notícias sobre o evento.
No dia 19 de setembro houve o segundo terremoto. Esse assustou muito mais. As imagens de prédios caindo como se tivessem sido implodidos, as pessoas desesperadas tentando achar seus familiares, os relatos em blogs, twitters e facebooks de tristeza, dor e pânico. As horas foram passando e o número de mortos aumentando. Em alguns lugares li que tinham confirmado a morte de 310 pessoas. Foi aí que comecei a repensar minha viagem ao México.
Não pelo medo de novos abalos sísmicos (que há também), nem por achar que eu poderia ser uma vítima de um terremoto (o que é possível também), mas na hora passei a pensar que esse é o momento do país voltar-se para si e reconstruir-se. É um momento de luto coletivo. Mais de 400 pessoas perderam suas vidas em menos de um mês. Eu não me sentiria bem indo até lá para me divertir, comer, tomar água, usar energia elétrica sabendo que milhares de pessoas estão sem casa, sem provisões, procurando seus entes queridos e chorando seus mortos.
O Encontro ocorreria em Veracruz, território não atingido fisicamente pelo terremoto. Mas, vejam bem, fisicamente apenas. Porque emocionalmente, quando morrem mais de 400 pessoas no Estado vizinho, não existe forma de se manter bem psicologicamente. Boca Del Rio, cidade onde aconteceria o evento fica a cerca de 400km de distância de Cidade do México, lugar mais acometido pelo terremoto. Eu moro em Porto Alegre, cidade que fica em torno de 320km distante de Santa Maria, cidade onde há 4 anos 242 jovens morreram e outros 600 se feriram em um trágico incêndio. Eu não conhecia nenhum dos jovens que lá estavam, mas fiquei chocada e por dias paralisada. Cada vez que tentava trabalhar, pensava nesses jovens, nessas vidas, nessas mães, pais, irmãos, filhos, amigos. Todos os eventos no Estado foram desmarcados em respeito a essa dor. Uma dor que atingiu todos nós de alguma forma.
Não conheço o povo mexicano, mas não preciso conhecer para saber que está doendo. Não preciso conhecer sequer uma pessoa de lá (apesar de conhecer e gostar muito e de ter ficado aliviada ao saber que estavam bem após o abalo sísmico) para me solidarizar com essa dor.
E foi por isso que decidi ficar em minha casa, com meu filho, minha família e trabalhando pelas pessoas com Esclerose Múltipla. Havia decidido isso antes de ocorrer o terceiro (sábado) e o quarto terremoto (domingo). Acredito que esse não seja o momento para nos reunirmos e discutir a EM lá. Quem sabe em outro momento sim. Com certeza um dia irei. Mas não hoje. Só iria se eu pudesse ajudar de alguma forma naquilo que hoje o México precisa. E hoje, vejo que minha ajuda será em forma de orações. Tão logo seja possível, podemos pensar novamente em realizar meu sonho de conhecer esse país que tanto admiro. Mas hoje fico na torcida para que todos fiquem bem e que consigam permanecer em pé, mesmo com as estruturas físicas ruindo. Acredito que hoje o povo mexicano precisa se unir para ajudar a si mesmo, e não para servir turistas. Sei que, provavelmente as provisões que seriam destinadas a mim não serão levadas a quem realmente precisa no país. Mas me sentiria muito mal em comer, beber, tomar banho e passear sabendo que o país está em estado de emergência por conta de uma catástrofe que atingiu boa parte das pessoas fisicamente e a todos emocionalmente.
Aí as pessoas podem dizer: ah, mas você diz isso também porque está com medo de ir! Não posso negar que após 4 abalos em um mês há sim o medo de ser atingida pelos efeitos de um terremoto. Sou mãe de um bebê de 9 meses que depende de mim pra tudo. Ele é minha maior responsabilidade e não posso ir para um lugar que não me garante a volta. Não que eu ache que vá morrer lá soterrada (o que é possível), mas se o aeroporto for afetado, eu teria que ficar longe da minha família por tempo indeterminado, além de ficar sem o tratamento para a minha esclerose múltipla. Para que eu continue trabalhando pela EM, eu tenho que estar bem. E, ficar longe do meu filho, certamente me adoeceria. E sempre que eu puder evitar a doença em meu corpo, eu evitarei. Então, sim, é medo também. Medo meu e daqueles que me amam.
Até o momento o Encontro não foi cancelado. E eu espero que, se ele acontecer, que seja muito proveitoso e que traga muitos bons resultados para todas as Associações de Esclerose múltipla da América Latina. Só que dessa vez não estarei lá para aprender com os/as demais colegas nem poderei compartilhar daquilo que conheço. Outras oportunidades aparecerão e poderemos compartilhar e confraternizar com alegria. Hoje meu coração está com o povo mexicano, minhas orações estão com o povo mexicano, mas minha presença fica em casa, porque não é preciso estar perto para estar junto.

Posicionamento oficial AME: http://www.amigosmultiplos.org.br/noticia/978/ame-desiste-participar-congresso-sobre-em-mexico-por-seguranca

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Miopia e interferon

Oi pessoal, tudo bem com vocês?
Por aqui tudo bem. Continuo vivendo essa louca gincana que é maternar, trabalhar etc.
Bem, e nessa doidera toda, minhas consultas médicas estão todas atrasadas. Uma que estava atrasada e eu fiz essa semana foi a ida à oftalmologista.
Como já contei por aqui em alguns outros momentos, eu tive problemas de visão por conta da EM e, durante muito tempo convivi com uma perda de visão periférica que foi melhorando ao longo dos anos e, principalmente, com o uso do Avonex. Usar o avonex me ajudou a deixar a bengala de lado e também a enxergar melhor.
Quer dizer... em partes...
Há uns 6 anos eu desenvolvi uma miopia. Bem leve (menos de um grau em cada olho), é verdade, mas precisava de óculos para não sentir tanta dor de cabeça. Como sempre fui uma adoradora de óculos, nunca me importei em ter que usar óculos. Tenho uma coleção deles. Sempre achei lindo usar óculos. Minha irmã (que hoje tem 16 graus de miopia, mas que já tinha 3 graus com 3 anos de idade) sempre usou óculos e eu sonhava em ter um. E tinha que ser quadrado e azul. Realizei esse sonho depois dos 20 anos, com a minha leve miopia.
Pois bem, pouco antes do Francisco nascer eu não estava mais usando meus óculos. Não sei, parecia que incomodava. Eu achava que era o inchaço da cara...hehehehe. Depois que ele nasceu, usei menos ainda, porque ele adora tirar óculos (e correntes, e brincos e qualquer adereço que esteja no rosto das pessoas), brincar e quebrar. O da minha mãe já está completamente torto.
Há alguns dias saí sem ele e coloquei o óculos. Mas logo tirei, porque estava nitidamente me atrapalhando. Aí resolvi marcar a oftalmo, que já devia ter ido há uns 4 meses, pelo menos.
Na consulta descobri que o olho que tinha um grau está sem nada e o outro, que tinha 0,75, está com 0,50. Ou seja, os óculos só podiam me incomodar mesmo. E agora não preciso mais de óculos!
Isso quer dizer que a gravidez curou minha miopia?
Bem que poderia ser. Mas, na verdade, não usar o interferon fez com que minha visão voltasse ao normal dela. Eu e minha oftalmo já desconfiávamos que minha miopia era causada pelo uso do interferon. Ela me disse que praticamente todos os pacientes dela que usam interferon acabam desenvolvendo algum grau de miopia, que regride quando param a medicação. Pois bem, eu fiquei um bom tempo sem o interferon e agora fazem só 7 meses que estou usando. Isso quer dizer que poderei ficar um tempo sem óculos ainda. Talvez o uso contínuo acabe fazendo a miopia voltar (assim como fez aparecer um ano depois de eu iniciar o uso do avonex). Aí eu tiro minha coleção de óculos da gaveta.
Achei interessante isso, porque nunca tinha lido em lugar nenhum sobre esse tipo de reação da medicação. E com vocês, já aconteceu algo do tipo?
Até mais
Bjs