quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Moda? Inclusiva?


Oi gentes, tudo bem com vocês?
Por aqui tudo ótimo! Francisco crescendo saudável e bem agitadinho dentro da barriga.
Hoje quero comentar um evento que participei ontem, à convite do Diversidade na Rua - Mercur na Univates (Unidade Integrada do Vale do Taquari de Ensino Superior - Lajeado), o Desfile de Moda Inclusiva.
Coloquei convite na fanpage do blog no face, e ontem também coloquei o link pra todos poderem acompanhar ao vivo. Já recebi retorno de algumas pessoas que conseguiram ver online e elogiaram a nossa roda de conversa sobre moda e inclusão. Também quero fazer um agradecimento especialíssimo a minha amiga Glaci, que foi de Teutônia à Lajeado ver a gente e ainda trouxe um monte de frutas gostosas pra satisfazer os desejos de Francisco (laranja e bergamota da Glaci tem outro sabor!).
Reencontrar a Carlena, conhecer pessoalmente a estilista e linda Vitória Cuervo, que eu conhecia apenas o trabalho, conhecer a Cris, que trabalha com a Carlena, é uma queridona e nos deu uma força também foi um imenso prazer. Ah, e temos que agradecer também ao Jessé, que dirigiu aguentando nossa tagarelice na ida e na volta...hehehehe.
Mas vamos ao evento, certo?
A proposta era ser um desfile de moda inclusiva. Ou seja, utilizar a moda como forma de inclusão, no caso, de pessoas com deficiência. A ideia surgiu um pouco naquele encontro que tivemos no ano passado sobre deficiência e beleza (não viu? Veja aqui) e falávamos sobre o quanto o mundo da moda e da beleza não é pensado para o singular, o diferente, seja essa diferença uma deficiência, uns quilos a mais, um corpo diferente do magro, esbelto e "perfeito" (se é que isso existe).
Essa proposta foi apresentada ao curso de moda da Univates, que deveria desenvolver com suas alunas (futuras) estilistas um desfile de moda inclusiva.
O evento consistia em três momentos: uma roda de conversa sobre moda e inclusão, comigo, a Carlena, a Vitória, a Susana (uma das modelos do desfile) e uma das estilistas, com uma mediadora. Depois teríamos a apresentações de dança e um desfile de moda inclusiva.
Mas, infelizmente, não foi exatamente isso que vimos.
Mas por que Bruna?
Bem, vamos por partes...
Acho que na roda de conversa conseguimos dar uma noção muito geral sobre inclusão das pessoas com deficiência na nossa sociedade. Destacamos o quanto não queremos ser exemplo de vida muito menos de superação pra ninguém, falamos que a moda não é pensada para quem tem dificuldades em abotoar uma camisa, andar sem salto alto e o quanto não devemos comparar nem pessoas nem deficiências. Apesar da falta de preparo da mediadora, conseguimos dar nosso recado sobre viver com uma deficiência: não é fácil, mas também não é impossível. Não somos melhores que ninguém, nem mais iluminados, nem mais importantes, nem mais sofredores, nem mais coitadinhos por causa disso. A Vitória, que já trabalha com moda inclusiva há muitos anos explicou, rapidamente, que a moda inclusiva não é a roupa adaptada individualmente, mas a moda pensada para todos e todas. Aquele velho conceito de acessibilidade que diz que acessível e inclusivo é aquilo que possibilita o máximo de autonomia à todas as pessoas, independente de suas limitações funcionais.
Eu fiz questão de reforçar que inclusão não é algo para as pessoas com deficiência, mas é algo para todas as pessoas, uma vez que possibilita que todos convivam com as diferenças. Lembrei disso ao ouvir a menina do curso de moda falar que para a maioria delas foi o primeiro contato que tiveram com pessoas com deficiência. Quem perde com essa falta de contato com as deficiências desde a infância é toda a nossa sociedade, que não sabe o que fazer quando se depara com uma pessoa com deficiência à sua frente, que fica com medo de conversar com um cego, que dá esmola pra qualquer pessoa que esteja numa cadeira de rodas, que foge sem tentar conversar com alguém surdo, que prefere ignorar a presença de pessoas com deficiência intelectual, que acha fofinho alguém com síndrome de down e faz graça de anão. Quem perde com a falta de inclusão é toda a nossa sociedade, que fica achando que toda pessoa com deficiência é exemplo de superação só porque vai até a padaria da esquina comprar um pão. Quem perde é quem continua dividindo as pessoas entre normais e deficientes.
Bem, essa foi a nossa roda de conversa.
Depois tivemos apresentações de dança com grupos de dança de algumas APAE's (desculpa gente, não lembro de quais cidades eram). Parabéns aos bailarinos!
E aí começou o desfile, que acompanhei das coxias do teatro. Confesso que quando eu ouvi a palavra portadores de deficiência no microfone, me doeu mais até do que a palavra normal proferida durante a conversa. Confesso também que escrever esse post pra mim é um pouco triste. Passei o dia de hoje inteirinho pensando sobre isso. Me sinto um pouco aquele lado do casal que diz: precisamos conversar!
O que eu vi não foi um desfile de moda. Não teve uma coleção de moda coerente. Não teve moda inclusiva. Não teve inclusão.
Novamente, vamos por partes.
Não teve uma coleção de moda, porque não foi uma coleção pensada para ser um desfile de moda. Amiga Vitória, que é estilista, se eu tiver errada me corrige, mas no pouco que eu entendo de moda, um desfile de uma coleção tem que ter uma coerência entre as peças, um tema pelo menos que perpasse as peças utilizadas pelos modelos. O tema podia até ser os sonhos dos modelos, como foi tão reiterado (já comento isso) na fala da apresentadora.
Não teve moda inclusiva, porque as roupas não tinham absolutamente nada que fosse pensado para a especificidade de cada uma das deficiências. As especificidades de ter uma deficiência motora, visual, auditiva etc., não foi problematizada no vestuário.
Não teve inclusão porque o que teve foi integração. E aqui eu desenho pra vocês a diferença entre inclusão e integração:

Inclusão é quando pessoas com e sem deficiência participam, igualitariamente e com equidade das atividades. Integracionismo é quando pessoas sem deficiência criam um evento do qual pessoas com deficiência possam participar, mas de forma diferenciada e separada das pessoas sem deficiência. Esse desenho fica fácil de explicar se pegarmos a escola como exemplo. Na lógica da exclusão, pessoas com deficiência não tinham direito nem lugar para estudar. Elas eram excluídas do processo educativo. Na lógica da segregação as pessoas com deficiência "ganharam" espaços para estudar, mas longe dos ambientes educativos considerados regulares. Na lógica da integração, classes especiais eram criadas dentro de escolas regulares, ou seja, pessoas com deficiência ganham um espaço perto, mas não a interação, o junto. Na lógica da inclusão, pessoas com e sem deficiência estudam na mesma sala de aula de forma igualitária, com os mesmos direitos e equitativa, ou seja, as especificidades da pessoa enquanto aluno deve ser atendida para que ela consiga permanecer no ambiente educacional.
Pensando assim, para ser um desfile de moda inclusiva, deveria contemplar a moda, com peças de roupas usáveis, que atendessem as especificidades dos usuários e tinha que ter essa mistura, de pessoas com e sem deficiência.
O que aconteceu foi que cada modelo (crianças e adultos) entrava, era apresentado a partir de sua deficiência como principal formador identitário, antes da pessoa, a deficiência, junto com sua "madrinha" (que era a estilista do figurino) reforçando a ideia de que a pessoa com deficiência precisa de alguém que o leve pela mão, e o texto lido pela apresentadora falava de sonhos, superação e amor, nada de modelagem, cortes e tecidos. Não se soube sobre o trabalho de produção das peças, só de aspectos subjetivos e clichês de esperança e superação. Aliás, algumas das peças se mostravam totalmente inadequadas, pelo simples fato de não dar autonomia e conforto a quem a vestia.
O que eu vi lá é o que a nossa sociedade está acostumada a ver desde o século XIX e que até o início do século XX era conhecido como freak show (quem nunca ouviu falar, pode dar uma olhadinha nesse filme, que retrata bem esses circos humanos: Freaks): exposição de pessoas com diferenças significativas para o espetáculo, para que as pessoas ditas normais olhassem, admirassem e pudessem voltar pra suas casas sentindo-se melhores por terem "proporcionado" esse "momento único" na vida dessas "vítimas do destino" e pensarem que seus problemas nem são tão grandes assim diante desses "exemplos de superação".
Quem foi, gostou, achou lindo e se emocionou, não se preocupem, isso está tão naturalizado na nossa sociedade que ninguém se questiona sobre o quanto isso vai contra todo o movimento de inclusão e de toda uma luta por direitos.
Não culpo os modelos e as famílias também, que provavelmente veem esse como um único momento em que seus filhos e filhas ganham destaque no centro de um palco. Mas o que eu digo, por experiência própria, é que um mundo inclusivo é muito mais que isso. Porque num mundo inclusivo a deficiência é apenas mais um aspecto identitário e não o principal. E a gente vai pro centro do palco pelas nossas qualidades, trabalhos, experiências e não pelo simples fato de ser considerado diferente e "anormal", como algo exótico a ser mostrado.
Mas fico me perguntando porque a Univates e o pessoal do Diversidade não pensaram em dar aulas sobre deficiência, inclusão, sobre o movimento das pessoas com deficiência até mesmo para elas escolherem as palavras corretas a serem utilizadas. Porque não chamaram uma estilista, como a Vitória Cuervo, que trabalha com moda inclusiva para ensinar o que é moda inclusiva, o que é um desfile de moda inclusiva. Porque não assistiram a desfiles de moda inclusiva mundo afora. Eles estão disponíveis no youtube. Aposto que, em um workshop de um dia, em dois turnos, a concepção de moda e inclusão delas seria outro. O vocabulário seria outro.
Eu sei que eventos integracionistas continuarão acontecendo. E eu vou continuar lamentando isso. Mas para chamar um evento de inclusivo é necessário estudar um pouco mais sobre o conceito de inclusão. É necessário estar mais perto de quem vive, trabalha, estuda, sente na pele a luta pela inclusão. Porque, vou contar um negócio pra vocês, ter uma deficiência não é necessariamente ter consciência de um posicionamento inclusivo, da mesma forma que ser mulher não te dá automaticamente consciência de gênero.
Eu não sei que problema de comunicação houve aí no meio do caminho, porque eu vejo essa luta pela inclusão e acessibilidade no Diversidade na Rua desde que conheci a equipe. E por isso que o choque foi grande.
Espero que, havendo uma segunda edição, realmente possamos dizer que essas duas coisas estão presentes: moda e inclusão.
O que eu vi foi uma mistura de desfile de miss (daqueles que falam sobre a vida da criatura que tá desfilando... aliás, só a análise dos textos de apresentação já mereciam, no mínimo, uma dissertação  dentro do âmbito dos estudos sobre deficiência), desfile de fantasia de carnaval (porque cada uma tinha um tema diferente e muitas eram fantasias mesmo), assistencialismo (madrinha? sério?) e apresentação de final de ano da escolinha.
Amigos e amigas, se quiserem continuar fazendo o evento nesse formato, mudem o nome, porque enquanto se chamar desfile de moda inclusiva, eu vou ir esperando ver um desfile de moda inclusiva.
Sabe, eu sofri pra escrever isso tudo. Sofri pelo que vi e passei o dia todo sofrendo pensando numa forma delicada de dizer isso tudo. A verdade é que é difícil. Ser o lado que faz a crítica é sofrido. Principalmente a partir da expectativa que eu tinha sobre o evento.
Eu poderia não ter dito nada, é verdade. Mas eu assumi um compromisso com o movimento das pessoas com deficiência muito antes de eu ter uma deficiência. E faz parte desse compromisso dizer pras pessoas quando algo incomoda quem está na luta há tanto tempo. Porque não é por maldade que as pessoas fazem isso, é por uma falta de reflexão ou de conhecimento ou das duas coisas juntas mesmo. As vezes as pessoas tem uma ótima intenção, mas a execução acaba não sendo algo que desconstrói o preconceito, apenas o reforça com uma maquiagem.
Estar no lugar de quem quer mudar e desconstruir é difícil. E às vezes é solitário também. Mas, pensando muito, o dia inteiro sobre isso, pensei que se eu não falasse nada, eu estaria me traindo.
Espero que consigam entender.
Até mais!
Bjs

4 comentários:

  1. Oi Bruna, nunca li um texto com tanta emoção e realidade. Sei da tua expectativa é o quanto foi difícil não ver o que deveria ter visto. Te agradeço, como todos que te acompanham, a franqueza de sempre. Um beijo grande pra ti e pro Francisco.

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  2. Oi Bruna, nunca li um texto com tanta emoção e realidade. Sei da tua expectativa é o quanto foi difícil não ver o que deveria ter visto. Te agradeço, como todos que te acompanham, a franqueza de sempre. Um beijo grande pra ti e pro Francisco.

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  3. Interessante tua publicação Bruna, essa reflexão toda é dolorida sim, em muitos momentos já pensei nisso... mas é difícil falar porque não queremos machucar os outros! Conseguir chegar neste texto muito bem escrito não deve ter sido fácil, é preciso REFLETIR! um beijo pra esta família linda! Débora Haupt

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  4. Bruna, que didática para falar das diferenças semânticas. Amei o texto! Como sempre, muito bem contextualizado! Parabéns!

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